Arquivo de maio de 2007
Dogmas da Tecnologia
Não há nada que me irrite mais nas pessoas que trabalham com vídeo e TV – muitos de meus queridos colegas entre estes – do que sua capacidade para repetir coisas que ouviram sem saber se estão certas, para afirmar peremptoriamente coisas que não sabem e para reafirmar dogmas estúpidos.
Trabalhamos em uma área que usa e faz avançar a mais avançada tecnologia de ponta e isso traz dois complicadores que sempre é preciso não ignorar: 1) é complicado pra cacete entender realmente a fundo nossas ferramentas de trabalho e 2) a indústria que as produz fará tudo para que consumamos rapidamente a nova geração de equipamentos e o maior número possível deles, não importando se isso é ou não o mais adequado para as nossas finalidades do momento.
Antes que me entendam errado, um DISCLAIMER: eu não acho que a Sony, a JVC, a Panasonic, a Microsoft e a Apple sejam grandes corporações malvadas. Eu as acho ótimas. São elas que produzem as ferramentas maravilhosas que me permitem fazer o que eu gosto a preços cada vez menores e com maior qualidade. Por outro lado, não sou ingênuo de achar que meus interesses e os destas empresas são totalmente convergentes. E acho que muitos dos profissionais da área, até por seu fascínio com as novas tecnologias, acabam adotando ferramentas, formatos e processos que não refletem a melhor relação de custo/benefício para seus objetivos específicos porque simplesmente se acomodam e aceitam o que o primeiro vendedor ou comprador de um equipamento dizem.
O resultado disso hoje, grosso modo, são dois universos paralelos de produção de vídeo e cinema em formatos digitais, especialmente no Brasil: um universo de grandes produtoras com equipamentos muito caros, em grande parte de ponta - seu capital em equipamentos gira na casa das centenas de milhares de reais ou milhões – e um universo de pequenas produtoras com capital abaixo dos cem mil reais, quando não da casa dos dez mil reais. Curiosamente, entretanto, este capital investido não tem qualquer relação direta com a qualidade dos produtos finais. Há muitas coisas boas e muita porcaria produzida por grandes produtoras – e não estou falando apenas de conteúdo, mas de qualidade técnica mesmo – e muitas coisas boas produzidas por pequenas empresas, bem como uma quantidade cem vezes maior de lixo.
Nem tudo o que é ruim evidentemente tem origem numa compreensão e uso inadequado das ferramentas tecnológicas à nossa disposição, mas eu diria que, no geral, predomina uma compreensão inadequada ou, no mínimo, incompleta destas ferramentas, do melhor modo de usá-las e de seu potencial para o bom e para o ruim. Há também, é claro, muitos equívocos no entendimento do processo de produção como um todo de material audiovisual e na relação entre as várias etapas deste processo. Entre eles, muitos problemas na criação e na roteirização, sem que necessariamente sejam um problema de “falta de criatividade” ou de idéias boas. Grandes idéias sem um processo adequado de desenvolvimento, sem produção adequada e sem muita disciplina e organização não significam nada em cinema. “Não importa o tema, mas o método”, já disse um dia o grande mestre Glauber Rocha.
Em síntese, a verdade que parece escapar a grande parte de meus colegas é a de que há espaço para produções de alto valor agregado, com estupendo impacto pela qualidade de áudio e imagem, sem que necessariamente se tenha acesso a orçamentos na casa dos milhões e a equipamentos de alta definição ou a telecines que trabalham em tempo real. Mas para isso é preciso não ceder a modismos e não aceitar como verdade algo que o colega afirma só porque ele conhece mais atalhos de teclado no Final Cut do que você. Leia, estude, pesquise. A Internet é uma ferramenta maravilhosa contra os repetidores de dogmas burros. Está tudo aqui. Basta digitar algumas palavras no Google.
Entre os dois universos descritos acima há espaço, trabalhando com equipamentos relativamente modestos e softwares que podem ser usados no PC de casa, para produzir coisas com uma qualidade comparável à de produtoras que trabalham com equipamentos muitos mais caros. É claro que você não trabalhará para um filme de Hollywood, mas investindo em conhecimento e em extrair o máximo dos equipamentos cada vez mais baratos à disposição, logo logo poderá chamar a atenção de produções que podem financiar um salto para um novo patamar. Por outro lado, se decidir continuar achando que filmar é só ligar a câmera e que não há problema em manter o diafragma no automático, ou ainda que o Final Cut te dá tudo o que precisa para finalizar seu filme, mais certo é que continue pelo resto da vida reclamando de como os governos não fazem o suficiente pelo cinema independente e gravando casamentos.
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