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Dois Filmes com Penélope Cruz
Posted By Pedro Novaes On janeiro 28, 2009 @ 1:44 pm In Uncategorized | 1 Comment

Sobre “Vicky Cristina Barcelona”, tenho ouvido várias pessoas fazendo comentários do tipo: “Ah, achei legal, mas não é dos melhores dele”, ou, mais comumente ainda, coisas do tipo: “É leve, né? Divertido, despretensioso”, como se se referissem a “American Pie” ou coisa do gênero. Por último, um descolado conhecido disse que não era legal porque “as pessoas passam por tudo aquilo, mas ninguém se transforma”.
Como achei o filme excelente, possivelmente o terceiro melhor Woody Allen (depois de “Match Point” e “Desconstruindo Harry”), me pus a pensar o que havia de errado comigo que ninguém o achara tão bom quanto eu, exceto minha mulher. E, óbvio, cheguei à conclusão de que o problema está nos outros.
Afinal, é preciso sutileza para compreender a fina ironia que perpassa todo o roteiro do filme e, sobretudo, para escapar às peças que nossos cérebros e espíritos, acostumados ao melodrama, nos pregam.
Em primeiro lugar, a voz do narrador marca o tempo todo, em constantes observações, sempre de fundo irônico, o contraponto ao que está acontecendo. E evidentemente o filme é corrosivamente crítico das posições de todos os personagens, na verdade estereótipos: a moderna que nunca acha sentido nas coisas, o artista galante que não consegue se acertar, o yuppie que só vê o mundo através de rótulos, a intelectual que não consegue arriscar ou mudar a vida por medo da opinião dos outros e a mulher desequilibrada.
Anestesiados pela enxurrada de melodramas, evidentemente aprendemos a esperar transformações dos personagens. As pessoas enfrentam obstáculos, se expõem a situações novas ou arriscadas e, no fim, se transformam para melhor. Mas a grande ironia de “Vicky…” é justamente que as pessoas não se transformam. Elas seguem as mesmas.
Acho que meu conhecido descolado não consegue enxergar o grosso dessa ironia porque o filme apresenta uma situação que é uma fantasia batida da maioria de nós, e, por isso, não apenas levada a sério, mas carregada de uma grande expectativa de transformação: um triângulo amoroso em Barcelona, a vida descolada dos artistas, jardins com apresentações de guitarras flamencas em noites de verão, etc. Tudo isso é lindo e bastante batido. Como poderia não transformar alguém?

Fatal, por sua vez, seria um filme quase cinco estrelas, se acabasse antes. ( O Lisandro acha que é apenas um melodrama sofisticado [1]). (Atenção, spoilers do filme abaixo).
Para mim, o roteiro deveria terminar quando, findo o caso entre David e Consuela, e morto George, o amigo poeta, o personagem de Ben Kingsley e Carolyn, sua antiga amante, conversam e ele se oferece para levá-la ao aeroporto no outro dia, ao que ela responde: “Estamos há 20 anos juntos. Por que começar com isso agora?” Fim perfeito. Daí em diante, capotada total. É incrível porque parece que o filme, até então equilibrado, bastante sóbrio e implacável com os personagens, instantaneamente descamba para o melodrama: em três rápidas cenas em sequência, David olha pela janela e vê, no prédio do outro lado da rua, uma velha triste na janela; em seguida, o vemos solitário e desajeitado no café onde costumava encontrar o amigo agora falecido; por fim, na sala de sua casa, as folhas de uma planta estão secas e caem ao chão. Todo filme sobre velhice têm que acontecer no outono e ter folhas caindo? Segue-se aquela infindável e intragável parte sobre o câncer de Consuela e a tranformação de David, que finalmente se torna um homem bom, capaz de se relacionar, a ponto de começar a rever a relação com o filho.
Esta última transformação, em particular, me foi a mais dolorida. A cena do filho procurando David para confessar que tinha um caso fora do casamento é sensacional, talvez a melhor do filme: diálogos ácidos, personagens muito bem trabalhados e interpretações soberbas de Kingsley e Peter Sarsgaard. A palhaçada do final estraga tudo. Nota 3,5.
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[1] Lisandro acha que é apenas um melodrama sofisticado: http://lisandronogueira.blogspot.com/2009/01/o-melodrama-e-qualificao-do-olhar-no.html#links
[2] 10 Melhores Filmes de 2008: http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2009/01/02/10-melhores-filmes-de-2008/
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