Sertão Filmes

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sobre sociologia barata e a patinação do nosso cinema

Era Uma Vez,  de Breno Silveira, é um bom filme. Para quem não viu, é uma espécie de Romeu e Julieta, em que ele é morador de um morro no Rio, e ela, uma garota bem criada da Zona Sul – um melodrama legal, muito bem feito, como quase tudo da Conspiração, e com um final até bastante surpreendente pelo que se poderia esperar de um filme que segue, em essência, todas as regras deste tipo de modelo narrativo. É um filme pensado pra ser comercial, pra agradar o público, sobretudo jovem; um filme feito pelo mesmo diretor e produtor de Dois Filhos de Francisco, maior bilheteria da retomada do cinema nacional (pelo menos enquanto Se Eu Fosse Você 2 não o superar).

Ótimo. Tudo corre bem até começarem a subir os créditos finais. Começa então uma locução em off (ou voz over para os tecnicamente precisos) do ator principal. Thiago Martins é um reconhecido talento revelado por Cidade de Deus, que nasceu e vive até hoje no Morro do Vidigal, tendo se formado ator e tomado contato com o cinema através do  Nós do Morro, exitoso grupo de teatro daquela favela, que com grande destaque vem, há anos, utilizando o teatro como veículo de inserção social de moradores do Morro. Na locução que encerra o filme, ele fala de sua infância e juventude pobres, como a de Dé, o protagonista de Era uma Vez, e nos informa que, não fora o cinema, poderia ter tido uma vida como a dele, trabalhando em empregos desqualificados e quiçá morrendo jovem, pois essa é a realidade da maioria dos moradores das favelas cariocas.

Ora, tudo muito bonito, politicamente correto, etc e tal. Mas, a despeito da importância do Nós do Morro, do talento de Thiago e de sua infância e juventude sofridas, o que o filme tem a ver com isso? Quem precisa desse discurso canhestro e forçado que soa como um mea culpa do cineasta por ser rico e ter grana pra fazer cinema num país cheio de pobreza? É triste, mas acho que pouca gente se dá conta do que ocorre por estar acostumada a esse tipo de sociologia barata como componente quase inelutável de filmes nacionais.

É certo que grande parte das vanguardas cinematográficas, na Europa e em países pobres, tiveram na crítica social um dos elementos de construção de sua proposta estética, temática e de linguagem. Foi assim com o Neo-Realismo italiano, com o Cinema Novo brasileiro e em outras partes. A própria retomada do cine argentino também incluiu uma grande leva de filmes que fazia a denúncia dos horrores de sua ditadura, por exemplo.

Mas tudo isso passou e maioria destes cinemas nacionais seguiu um curso natural que levou a um diálogo inclusive com as formas do cinema clássico e industrial e a um diversificação de temas – vide, por exemplo, mais uma vez, o quanto nossos hermanos argentinos estão à nossa frente em quantidade e qualidade de produção ficcional (o Jean Claude Bernardet andou apanhando por falar isso, aliás).

Aqui no Brasil, entretanto, seguimos reféns da obrigação deste tipo de sociologismo, hoje barato e empobrecedor. Isso ocorre, creio, entre outras coisas, pela enorme prevalência de um dogmatismo esquerdista, pela onipresença e pervasividade de molduras atávicas de pensamento oriundas do ideário marxista, pela mais pura acomodação da crítica e da academia e pelo medo de sermos chamados de coisas que por aqui ainda são xingamentos -  como “capitalista” ou “direitista” -, xingamentos estes que traduzem na verdade a incapacidade de quem os articula para uma crítica honesta e aprofundada de nosso cinema e de nossa sociedade de forma mais ampla.

Tomemos, por exemplo, a polêmica em torno de Tropa de Elite (ai, de novo…). É certo que José Padilha e Bráulio Mantovani fazem uma provocação precisamente ao tipo de pensamento que aqui se critica, acusando a elite intelectual de financiar o tráfico, ao mesmo tempo em que insiste em atacar, apoiando-se em pensadores de cepa esquerdista, a violência da polícia e a “injustiça do sistema capitalista”, que, ao não dar oportunidades aos jovens pobres, legitimaria sua opção pelo crime. Para além disso, trata-se de um ótimo filme policial, passível de algumas críticas certamente, sobretudo de roteiro e na construção de personagens, mas isso é outro assunto. O que interessa dizer aqui é que Tropa de Elite foi duplamente condenado por grande parte da crítica e da elite intelectual por dois motivos: 1) por ser um filme policial, que não faria portanto uma “análise profunda e justa da sociedade brasileira e do problema do crime”, o que por aqui é crime, e 2) por, pior que fazer um filme puramente de entretenimento e que não contém sociologia como a que se espera, repetindo a lenga-lenga da injustiça social e da guerra de classes, ainda ousar criticar essa sociologia barata e quase sempre hipócrita.

Felizmente, num rumo oposto, que pode indicar um amadurecimento de nossa produção, achei Veronica, do Maurício Farias, ora em cartaz, bastante surpreendente. Fui com a expectativa de ver sociologia barata em mais um “filme de favela”, mas assisti a um bom filme policial que, graças aos céus, não envereda por essa seara tão cara a nosso cinema, quanto ultrapassada.

Não que não possamos e não  devamos produzir filmes que contenham críticas sociais, mas precisamos, primeiro, que isso deixe de ser um espécie de obrigação ética de quem faz cinema num país pobre, segundo que, optando por fazê-la, abandonemos a moldura rasa e inadequada desta sociologia que, infelizmente, ainda prevalece  em nosso meio acadêmico e na sociedade de forma mais ampla. Entre a produção de um cinema mais chegado aos formatos clássicos, aqui muito próxima e mesmo refém de nossa produção dramática  televisiva, e esse pobre cinema sociológico que se pretende de vanguarda, há um vasto território temático e de linguagem a ser explorado.

Do lado de quem assiste, é preciso também que façamos um exercício sério e honesto de pensamento para que possamos abandonar aquilo que o professor Lisandro Nogueira muito sabiamente denomina de “crítica domesticada”, aquela que não se preocupa em de fato ir a fundo nas implicações estéticas e temáticas dos filmes. Aqui, ela simplesmente repete incessantemente frases feitas e opiniões empoeiradas que delimitam um estreito e árido território onde toda arte, pela perigosa idéia de que tem uma “função social”, deveria se encaixar. Se não, paredão neles.

Sem essa sacolejada, nosso cinema continuará anos-luz atrás daquele, hoje tão rico, de nossos vizinhos argentinos.

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7 Comentários

  1. Arturo 23-2-2009 1:51 pm

    Belo post Pedro, mas só uma coisinha… “Dois Filhos de Francisco” foi a maior bilheteria do cinema nacional depois da retomada com 5,2 milhões de espectadores. A maior bilheteria registrada do cinema nacional é de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” com mais de 10 milhões de espectadores, seguido por outros filmes de bilheterias expressivas, entre elas, “A Dama do Lotação” com mais de 6,5 milhões de espectadores.

    Abs
    Arturo

  2. Pedro Novaes 23-2-2009 4:17 pm

    Eu, querendo apanhar: http://tinyurl.com/atemju

  3. Pedro Novaes 24-2-2009 10:21 am

    Valeu, Arturo, pela observação, agora já corrigida no texto. Abs.

  4. lisandro nogueira 24-2-2009 11:07 am

    Olá Pedro,
    Primeiro, você escreveu só porque estava entediado? Acho que não. Sem justificativas. Seu texto esclarece e toca na ferida clara do cinema brasileiro: o “complexo de culpa”. Os filmes mais críticos do cinema nacional são bons principalmente por causa da Forma – ao contrário desses filmes de conteúdo social. A ditadura dos editais criou a instância da “compaixão coercitiva”. Ou seja, a Forma é desprezada em nome de um cinema fácil de assimilação rápida. Esse cinema tem “compaixão” pelos pobres, ganha dinheiro em nome dos excluídos e realiza filmes para agradar o grande público.
    Penso que é um cinema quase-cínico.
    Discordo de você quanto ao marxismo. São submarxistas. Glauber Rocha fez um cinema marxista – não tanto por ele e mais pelo contexto. Outra coisa: Tropa de elite faz crítica ao “sociologismo”? Acredito que não. Teve a intenção, mas não conseguiu sair dos lugares comuns e dos clichês.
    Caro Pedro, concordamos sempre que o cinema passa por uma fase ruim. Sem nostalgia, os filmes atuais pecam por isso que você denomina, com firmeza, de “sociologia barata”. Poderíamos chamar tb. de filmes “politicamente corretos”.
    Gostei do seu texto e, pela vontade da expressão, não havia nenhum tédio. Sem justificativas e sem adjetivos, você vai confeccionar textos cada vez mais atilados. Seu caminho para a crítica foi aberto. Agora é caminhar com muito estudo e disciplina. Um abraço, Lisandro

  5. lisandro nogueira 24-2-2009 11:32 am

    Olá Pedro,
    Mais uma coisa: acertou no alvo em relação aos filmes argentinos. Eles são seguramente melhores. Eles focam os dramas universais e sabem realizar um cinema “sem pretesão”. Escrevi um texto sobre o filme argentino “Ninho vazio” (exibido recentemente em Goiânia). Está no blog. Poucos concordam com nossa afirmação (sua, minha, do Jean-Claude) de que eles fazem um cinema mais instigante. Ponto alto do seu texto – sem tédio (rs, rs) e com coragem. (Lisandro)

  6. Daniel Christino 25-2-2009 4:58 pm

    Pedro, concordo com quase tudo. Só acho esse lance – que nós sabemos muito bem de onde vem – de culpar o “marxismo” ou o “esquerdismo” pela sociologia rasteira do cinema brasileiro meio redutor. Não haveria outros fatores mais interessantes por trás desse “complexo de pobreza”? A comparação com o cinema argentino é boa também para alargar os horizontes dessa questão. Será que o cinema brasileiro não consegue ser existencial ou cotidiano sem endereçar questões sociais e políticas? O “Santiago” do João Moreira Sales é uma boa referência. De onde vem aquele desasossego com o mordomo? Talvez seja por aí.

  7. Pedro Novaes 4-3-2009 9:00 am

    Meus caros,

    Gracias pelos comentários. Então, Daniel, eu suponho que sim, que haja mais que marxismo e esquerdismo nesta perenização e empobrecimento da estética da fome, reduzindo a cinematografia a essa pobreza politicamente correta. Sua pergunta é boa: “Será que o cinema brasileiro não consegue ser existencial ou cotidiano sem endereçar questões sociais e políticas?” Não tenho resposta, mas podemos tomar como exemplo o “Casa de Alice” ou o “O Ano em que meus pais saíram de férias”, que são justamente dois filmes “quase argentinos”na temática e na abordagem mas que não conseguem me emocionar. Por quê?

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