Sertão Filmes

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Arquivo de julho de 2009

Alice de Tim Burton

Para quem ainda não viu, tá aí o trailer oficial de Alice no País das Maravilhas, com direção de Tim Burton, e Johnny Depp e Anne Hathaway no elenco.

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Sobre Corumbiara

Acabo de assistir a Corumbiara, o documentário de Vincent Carelli que tem como fio condutor a investigação do massacre de um grupo indígena por fazendeiros em Rondônia na década de 1980. Deu uma certa angústia, vontade de enfiar o rabo entre as pernas e sair correndo e ganindo – caim, caim, caim – com meu filmezinho pretensioso sobre índios. Corumbiara é um monolito, uma obra-prima. Corumbiara e Serras da Desordem são os dois maiores documentários sobre índios já feitos no Brasil e dois dos melhores documentários brasileiros de todos os tempos.

Corumbiara é uma experiência audiovisual de alto impacto. Ecos de cinema direto. Premiado com uma menção honrosa no É Tudo Verdade deste ano, com o grande prêmio do 11o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, e agora incluído na seleção oficial de Gramado, o filme de Carelli não tem frescura nenhuma. É documentário no sentido mais nobre e violento que a palavra pode ter. São duas horas de imagens poderosíssimas pontuadas, aqui e ali, pelas locuções econômicas, diretas e sem rodeios do diretor, alguns depoimentos e nenhuma trilha sonora.

A força do filme deriva, a meu ver, em primeiro lugar, do mérito de Carelli em reconhecer que tinha um material poderosíssimo nas mãos e então conseguir não se colocar diante dele, mas simplesmente pavimentar o caminho para que ele pudesse se exibir em toda a sua força. Nem sempre é fácil reconhecer isso. É muito grande a tentação do diretor querer se colocar, e aí fazê-lo da maneira errada, imprimindo uma marca pessoal por meio de firulas, frescuras e truques que acabam dissipando o poder explosivo do que se tem. É fácil pensar também que não se “colocar” seria um demérito, que, como diretor, tenho que fazer algo mais que simplesmente não me interpôr, não atrapalhar. Neste caso, mais que desnecessário, seria um equívoco. E não que o filme não tenha a marca de Vincent. Ele é o cara, a história de vida dele. O documentário restou inconcluso por mais de 20 anos e finalmente agora se fechou. Então, primeiro mérito, fazer um filme sem frescuras que é uma pancada na cabeça.

Em segundo lugar, a força de Corumbiara vem daquilo que ele não mostra, mas que, não exibido, paira sobre o filme e a cabeça do espectador como uma opressiva nuvem: o fato de que este país à nossa volta foi construído à custa de milhares de corumbiaras. Passemos então a uma sinopse e explicação: Corumbiara é o nome de uma gleba de terras em Rondônia, demarcada e vendida pelo Governo Federal, ainda durante a Ditadura, cujos donos ordenaram o massacre de um grupo indígena que ali vivia. À época, Vincent e Marcelo dos Santos, indigenista da FUNAI, investigaram os vestígios do massacre, mas não lograram convencer as autoridades e o país da brutal realidade do que ali ocorrera – isso não interessava a ninguém. Marcelo acabou desacreditado e foi proibido de permanecer na região. Anos depois, em sucessivas viagens, os dois retornam à região para retomar a investigação e seguir o rastro de índios que, acreditavam, poderiam ser sobreviventes do massacre. O documentário segue inconcluso até que, em 2006, Carelli retorna mais uma vez à região.

Desta maneira, quem assiste fica, todo o tempo, espremido entre essa sombra – de todas as corumbiaras não mostradas -, o impressionante universo daquilo que são as consequências diretas e indiretas do massacre investigado e a grandiosidade do universo indígena retratado, vivo e intensíssimo, apesar de todas as corumbiaras. A cena do cerco ao “índio do buraco” solitário e arredio, expulso a bala de outra gleba na região, é das coisas mais impressionantes que já vi. Durante seis horas, Marcelo e sua equipe tentam acalmá-lo para um diálogo. Ele aponta sua flecha, através das palhas da cabana, para a câmera de Vincent o tempo todo. Por ironia, o objeto que mais o ameaçava era o que registraria as imagens que garantiram a interdição definitiva da área para sua proteção.

Imperdível.

UPDATE: desculpas ao Marcelo pelo erro em seu nome, conforme comentário abaixo, já corrigido acima.

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Besouro – O Filme

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A surpresa da boa bilheteria dos filmes nacionais em ano de crise, encabeçada pelas comédias Divã e Mulher Invisível, promete não se esvair no segundo semestre, nem tampouco, quem sabe, seguir como responsabilidade única e exclusiva das comédias. Além de Os Normais 2, dirigido pelo mesmo José Alvarenga JR. de Divã e de Os Normais – o Filme, a grande promessa da safra próxima de estréias é o filme Besouro, dirigido por João Daniel Tikhomiroff.

O filme, embasado em história da tradição oral baiana, conta a história de um super-capoeirista que luta contra a opressão e o preconceito na Bahia do começo do século XX. Nas palavras do diretor, “queremos que ele seja, para a capoeira, o que filmes chineses contemporâneos como ‘Herói’ e ‘O Tigre e o Dragão’ são para as artes marciais orientais: um espetáculo de aventura, onde a paixão, o misticismo e a emoção têm papel central.”

Besouro é uma produção da Mixer, com coprodução da Globofilmes, e junta um time de primeira. Patrícia Andrade (Dois Filhos de Francisco, Era Uma Vez) e Bráulio Tavares (O Homem que Desafiou o Diabo e A Pedra do Reino) assinam o roteiro junto com o diretor. Fátima Toledo (Cidade de Deus, Tropa de Elite) comandou a preparação de elenco, Enrique Chediak (do promissor Repossesion Mambo e do mal afamado Turistas, entre outros filmes) é o diretor de fotografia. A música tema é de Gilberto Gil acompanhado pelo Nação Zumbi.

Confira o trailer abaixo.

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A arte de montar trailers

Já que acabamos de soltar o trailer do Cartas do Kuluene, não custa lembrar que a roteirização e montagem de trailers é uma arte por si só, uma função que, em Hollywood, é executada por profissionais e empresas especializados. Os trailers de grandes filmes com frequência incluem cenas feitas especificamente para eles e podem ter trilha sonora própria. Ora, o Independent Film Channel criou sua lista dos 50 melhores trailers de todos os tempos. No topo da lista, figura o trailer de Alien – O Oitavo Passageiro, que você confere acima.

[Via Brainstorm]

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O Montador

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Eu e João Paulo Carvalho, outro mestre, montador de Dom, Benjamin, O Paí Ó e da nossa série Xingu. Ele generosamente topou nossa insana proposta de nos ajudar a finalizar o Cartas do Kuluene. Daqui a uns dois meses, devemos tê-lo aqui em Goiânia.

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Do mestre com carinho

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Francis Coppola dispensa palavras. Apocalipse Now é tudo, inclusive uma das grandes referências do Cartas do Kuluene, que estamos montando. Mês passado, durante meu aniversário, no Rio, a Júlia, minha prima, produtora executiva na Mixer, me brindou com uma garrafa do vinho produzido nas vinhas do mestre – seu Pinot Noir, obviamente excelente, e que leva seu nome. O cara não sabe só fazer filmes.

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Jean Charles Surpreende

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Fiquei positivamente surpreso com “Jean Charles”, o filme do Henrique Goldman, que conta a história do brasileiro morto pela Scotland Yard no metrô londrino por ter sido confundido com um terrorista. Confesso inclusive que acabei assistindo ao filme por acidente. Fui para uma sessão de “Ninguém sabe o duro que dei”, mas o horário errado na programação do jornal me confrontou com as alternativas de Jean Charles, Mulher Invisível ou voltar pra casa. Arrisquei o primeiro.

Evidentemente, esperava um melodrama clássico, pintando nosso azarado compatriota como um herói latino-americano, vítima de uma polícia autoritária e despreparada: um defensor da paz, um homem bom injustamente esmagado pelo choque entre radicais islâmicos e o Império.

Não é nada disso. Jean Charles é retratado como um absoluto anti-herói, cujo principal traço é a pior das características nacionais, isto é, o jeitinho e a malandragem vistos como traço positivo de caráter. Logo na sequência de abertura, vemos o protagonista, interpretado por Selton Mello, mentindo deslavadamente para o oficial de imigração que quer negar entrada no país à sua prima, interpretada por Vanessa Giácomo, desconfiado de que ela pretende trabalhar na Inglaterra – o que de fato é obviamente sua intenção. Engambelado o agente do governo, na sequência seguinte, à saída do aeroporto, abraçado à prima e orgulhoso de sua façanha, Jean Charles ensina, sublinhando o quão ingênuos e otários são os ingleses: “Pra mentir bem, tem que mentir com detalhe.” Esse é nosso personagem: um imigrante com inteligência um pouco acima da média que a usa para subir na vida, não importando os meios e servindo-se do famoso jeitinho brasileiro: ele vende vistos de permanência que não consegue entregar, dá a volta em seu empregador e amigo e se oferece para prestar serviços diretamente aos clientes dele, entre outros expedientes pouco éticos ou simplesmente ilegais.

Deve-se ressaltar que escapamos do melodrama fácil, mas que ainda nos encontramos em seu território. O filme é corajoso ao caracterizar Jean Charles dessa maneira, mas o reverso disso tudo é a idéia – corroborada pelo desdobramento de seus expedientes, todos malogrados – de que ele, no fundo, tem bom coração, pois se arrepende dos erros, gosta de ajudar as pessoas e de promover a conciliação geral. A regeneração moral é uma das pedras angulares do melodrama.

Antes do jeitinho brasileiro como crítica de fundo do roteiro, há evidentemente também a crítica direta ao país que não consegue se colocar nos trilhos de algo que se possa chamar de desenvolvimento e que continua empurrando as pessoas para o portão de embarque dos aeroportos rumo ao trabalho no exterior.

O roteiro também ganha pontos por conseguir evitar se estruturar como uma trama conforme o cânone dos manuais de roteiro. Nada mais é que uma exposição do protagonista e de sua vida abruptamente interrompida por seu assassinato, o que sublinha outro subtexto essencial e impactante: a angústia em torno do aspecto aleatório de nossas vidas. Vemos Jean Charles em seu cotidiano banal e de repente acabou-se. São pequenos e estúpidos detalhes que se somam para culminar nos sete tiros que tiraram sua vida. Mínimas diferenças e o resultado teria sido outro.

Outro ponto forte do filme reside na escolha dos atores. Selton Mello passa, mas sua performance é obscurecida pelos coadjuvantes, sobretudo pelo excelente Luis Miranda, que surpreende, por sua formação como comediante, com uma brilhante performance dramática. De modo geral, é muito feliz a escolha de um elenco com cara de gente comum (mesmo Vanessa Giácomo passa muito bem como secretária de dentista de cidade do interior).

Em resumo, não se trata de uma obra-prima, mas o filme merece crédito pela abordagem inesperada e até corajosa. Toca de forma inteligente as emoções e não deixa de ser respeitoso com Jean Charles e sua família, levantando ainda a bola do importante debate sobre emigração no Brasil. Nota 7,5.

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