Sertão Filmes

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Vanguarda sem Retaguarda

Foto-Glauber-Blog

Walter Murch, o grande montador de cinema, profissional oscarizado por trás de filmes como “Apocalipse Now” e “O Paciente Inglês” não é um saudosista da moviola. Ele fez com tranquilidade a transição para o digital e a edição não-linear, mas é lúcido, reconhecendo que há ganhos e perdas nas mudanças tecnológicas. Entre estas, ressalta que a tecnologia digital, pelo seu custo infinitamente menor e pela possibilidade de desfazer erros, fomenta certo desleixo no processo de trabalho e sobretudo falta de cuidado com o planejamento. Montar em película, com o alto custo de cópias adicionais em caso de erros para remontar uma sequência, sempre obrigava a equipe a maior organização e a pensar muitas vezes antes de lançar mão da tesoura.

O mesmo vale, sem dúvida, para o set de filmagem. Rodar em película obriga a muito planejamento e a ensaios exaustivos com os atores, pois na hora em que se dispara a câmera, tudo tem que funcionar, tendo em vista o preço do negativo e também, claro, o custo da equipe e equipamentos mobilizados.

O custo comparativamente menor para a captação de imagens digitais – mídia regravável, equipes menores, câmeras mais baratas – e a ilusória facilidade de manuseio das câmeras digitais têm induzido, sobretudo os jovens realizadores, a uma cultura de desleixo com o planejamento dos filmes. Captar imagens de fato é fácil. Difícil é captar imagens de qualidade, com alto valor agregado e transformá-las num filme de qualidade. Fato é que o famoso mote glauberiano do Cinema Novo, de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, perdeu sua validade. Na verdade, ele nunca teve validade para além de uma idéia-força ou lance de marketing, pois mesmo Glauber e os outros cinema-novistas conheciam profundamente seu ofício e planejavam seus filmes com cuidado antes de disparar a câmera.

A essa ilusória facilidade do digital, que sugere podermos abrir mão do planejamento, une-se, a meu ver, de maneira deletéria, a moda do experimentalismo. Soma de um equivocado pensamento esquerdista, que vê nos filmes narrativos a dominação cultural de um formato imposto pelo cinema americano, à enganosa idéia de que a criação seria produto de um mero ato de inspiração, sem qualquer participação da razão e de técnicas, esta visão tem levado a uma preocupante predominância de filmes não-narrativos entre os curtas produzidos no Brasil e a filmes com pouco ou nenhum apuro técnico, pois no final o que importaria seria apenas “a idéia na cabeça”. Com todas as palavras, o experimentalismo tem sido usado como desculpa para produzir filmes ruins e colocar a culpa na falta de cultura e sensibilidade do espectador pelas diminutas platéias.

Pior ainda, esta moda do experimentalismo, típica de uma visão pós-moderna, em que tudo se justifica em si mesmo e auto-determina seu valor, tem levado a uma formação muito deficiente de roteiristas no país. Escrever roteiros é 10% de inspiração e 90% suor e técnica, técnica esta que o cinema vem desenvolvendo e apurando há um século.

O mais engraçado é a idéia de que se está fazendo cinema de vanguarda, ao promover supostas inovações de linguagem. Ora, mas uma vanguarda é sempre algo que se faz em contraponto a uma certo ponto de vista e modo de fazer dominante numa arte, não? Como então falar em vanguarda se mal conheço e compreendo de fato o caminho tradicional já consolidado?

Acabo de retornar do 1o Curta Carajás, o Festival de Cinema de Parauapebas, no Pará. Assistimos, ao longo de cinco dias, a 48 curtas de 16 estados diferentes do país, uma bela amostra de nossa produção recente de filmes curtos – 29 ficções, 16 docs e 3 animações. A maioria dos curtas de ficção tem roteiros que fogem de uma estrutura narrativa clássica, isto é, uma história com começo, meio e fim, onde se apresenta uma pergunta que a conclusão do filme responderá ou onde uma situação em desequilíbrio será reordenada. Quase todos são “filmes-cabeça”, abertos, sem trama, sem personagens definidos e sem lugar algum a que se deseja chegar. E a grande maioria, embora não todos, é muito ruim, pois combina roteiros débeis a zero de apuro técnico.

Não sou contra filmes não-narrativos, nem contra a experimentação de linguagem no cinema, mas acho que aventurar-se nessa seara requer muito mais estofo e é algo que deveria decorrer da evolução de uma trajetória que necessariamente tem que partir de um conhecimento profundo da linguagem e estrutura narrativa do cinema clássico hollywoodiano. Além disso, experimentar não significa deixar de lado o apuro técnico e o planejamento. Ao contrário até, pois me aventurando em territórios não cartografados de linguagem só posso ter algum tipo de segurança se conheço as ferramentas do meu ofício.

Essa moda não é boa para a o futuro do cinema brasileiro.

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15 Comentários

  1. Caio Novaes Filipini 23-11-2009 8:45 am

    Triste e verdadeiro.

    Se aplica bastante ao cenário musical também. A facilidade que existe hoje para gravar música digitalmente nos traz diversas surpresas que provavelmente não conheceríamos por outros meios, mas também nos mostra muita coisa ruim.

  2. Jair Antunes 23-11-2009 2:01 pm

    Mais lenha (de madeira de demolição) na fogueira.

    Concordo que muita facilidade pode também atrapalhar.
    Concordo que o tiro do experimentalismo e da vanguarda a qualquer custo também pode sair pela culatra.
    E acho que a boa idéia é ainda a maior de todas as revoluções.
    Não há técnica,novidade, tecnologia que torna um curta bom se ele não tem uma boa idéia.
    Na minha opinião, é claro.

  3. Robney Bruno 23-11-2009 2:33 pm

    Muito interessante o seu texto, Pedro.
    Dizes muito bem sobre a forma oca que alguns cineastas insiste em pensar, jogando no público, a culpa destes não entenderem os seus trabalhos. Há alguns anos escrevi um texto falando justamente disso e quase fui massacrado aqui em Goiânia: “Arte de Vanguarda é feito pra não se entender mesmo meu bem”, diziam.
    Outra coisa que precisamos repensar é na forma como o documentário está sendo tratado atualmente. Virou moda fazer documentário como se faz receita de bolo: pega-se alguém conhecido (de fama nacional ou local não importa), faz algumas entrevistas emocionais, coloca algumas fotos de arquivo pra dar liga, bate tudo junto com uma música sentimentalóide, edita em 40 minutos, e eis-la: Mais um filme que acabou de sair do forno. Sugiro que também escreva algo neste sentido, o que voce acha?
    Abçs
    Robney Bruno

  4. Lisa 24-11-2009 10:16 am

    Olá Pedro,
    Gostei do artigo. Muito. É uma luta convencer os guris na Universidade de que não basta uma boa idéia, é preciso aprender a comunicá-la.Como banalizou e barateou tanto fazer filme oa avanços tecnologicos jogam contra contribuindo para a banalização da linguagem cinematográfica como vc apontou.
    Um bj
    Lisa

  5. Gustavo Lima 25-11-2009 1:04 pm

    Que bom, uma parte dessa turma de gente que “faz” cinema acha que é só ligar a tal câmera(os mais criteriosos ainda tentam ler o manual..) que tá pronto,joga uns barulhos de algum sapo que se auto intitula “dijjei” ou coisa assim, outra gosta de roupa e vira figurinista, e por aí vai.Não dápra enganar a gravidade, SUCESSO SÓ VEM ANTES DO TRABALHO NO DICIONÁRIO, fora disso é ralação, a turma deveria apagar umas 5 vezes o que fazem antes de mostrar a alguém. Como essa turma quer fazer coisa boa sem ler? Vamos para a biblioteca macacada!!!!!!!

  6. Rodrigo Cássio 25-11-2009 1:25 pm

    Olá Pedro Novaes,

    É sempre bom encontrar textos que refletem sobre o cinema, inclusive quando discordamos deles. A propósito, o espírito da discordância inteligente e produtiva é algo que anda raro, infelizmente. Talvez porque esse espírito tenha sido verdadeiramente forte apenas durante o cinema moderno, ou nos circuitos fechados da vanguarda.

    Penso que o artigo extrai algumas conclusões impróprias de premissas que deveriam ser melhor debatidas, e gostaria de comentar sobre isso. Tratando-se de um texto que emite juízo de valor estético, há uma concepção de arte que fica velada, servindo-lhe de fundamento; ou seja, há uma predeterminação do bom e do mau filme, mas que não é posta em xeque nunca. Talvez essa ausência de uma análise dos próprios filmes seja o que simplifica, no texto, o significado do cinema clássico e do moderno, simplificando também as relações entre eles na era contemporânea. Sobretudo na parte final do artigo, isso me incomodou.

    Ainda que, na primeira frase do parágrafo final, o texto tenha a precaução de não condenar o experimentalismo tout court, é patente a indisposição para com essa vertente, sintetizada nas cobranças por um aprimoramento técnico, ou na afirmação de que um gesto vanguardista, no Brasil, deveria ser posterior a algum tipo de profissionalização do cinema que consolidasse o alvo a ser contraposto por ele (o que pergunto é: qual a concepção de cinema que está por trás dessas cobranças? Afirmar a importância do aprimoramento técnico já é um ato que inibe alternativas diferentes. Não é possível defender certas práticas sem cunhar um significado do cinema.).

    Quando é dito, então, que o experimentalismo é uma desculpa para que sejam feitos filmes ruins, essa tese carece de demonstração. Até mesmo se considerássemos, imprudentemente, que o conceito de filme ruim é algo muito claro e evidente, a discussão se tornaria estéril por causa da duvidosa assertiva sobre a intenção vanguardista dos cineastas. Seriam eles pessoas más intencionadas, que levantam referências cinematográficas apenas como desculpa? Ou seriam preguiçosos arrogantes?. O cinema de ruptura (moderno/vanguarda) será mesmo esse vulto que paira sobre os cineastas atuais, prejudicando a todos? Não creio.

    Do fato de que muitos filmes, ditos experimentais, possam ser considerados ruins, não resulta que o flerte dos cineastas com essa tradição é o que realmente deva ser questionado. Existem filmes ruins tanto do lado do cinema de origem clássica quanto do lado das rupturas! Ao contrário do que sugere o texto, não vejo o acesso ao cinema de ruptura como uma etapa que só é conseguida depois que os cineastas aprendem a fazer filmes, como em Hollywood. Nessa tese, há o deslocamento equivocado de um problema de formação estética e de construção da sensibilidade (problema do qual o artigo desdenha) para o domínio da realização.

    Não é necessário dominar a técnica do cinema narrativo dramático para ser um Júlio Bressane (você conseguiria imaginar Bressane filmando um filme clássico? rs Aposto que ele simplesmente não seria capaz). A imensa maioria dos cineastas modernos e de vanguarda nunca realizou filmes clássicos. Todavia, a maioria destes mesmos cineastas foram ou são cinéfilos vorazes e pensadores do cinema. Apenas isso nos força a admitir que a formação dos cineastas (e também do público) não é uma falsa questão, e merece ser vista com outro olhar. Não é a inexistência de um cinema narrativo de características clássicas, localmente, que faz com que os nossos filmes pretensamente modernos sejam ruins, mas sim a inexistência de um ambiente no qual o gesto moderno de ruptura seja tomado em seu verdadeiro sentido e amplitude. Falta discutir e entender melhor o cinema, e não fazer mais filmes.

    Nesse aspecto, o seu artigo já mostra que a assimilação das rupturas é um tanto quanto turva, hoje (o que não exclui que a assimilação do cinema clássico, em geral, também é deficitária; mas não necessariamente na prática). Entender que o princípio glauberiano da câmera na mão e uma ideia na cabeça foi sobretudo um lance de marketing é desprezar exatamente o que Glauber tem de mais importante para nos dizer. Afirmar que a vanguarda é uma moda, seja em suas diversas vertentes do século XX ou em seus legatários atuais, é dissimular o que é a vanguarda, a fundo, e qual a sua importância para o cinema (o termo MODA, aqui, chegaria a ser ofensivo para certos vanguardistas!rs). Na mesma linha, o ataque do artigo a um esquerdismo questionador de Hollywood é gratuito. A teoria crítica do cinema hollywoodiano é muito mais avançada do que supõe essa rejeição ideológica tão em voga, disseminada por certo neoconservadorismo, e que, na verdade, não faz nem cócegas nos teóricos de esquerda sérios, que existem inclusive no Brasil.

    Por fim, eu concordo que experimentar não significa deixar de lado o apuro técnico e o planejamento. Mas acrescento que exigir apuro técnico, enfatizar os bons roteiros e insuflar o planejamento meticuloso que resulta na boa imagem são gestos que estabelecem, necessariamente, um tipo determinado de cinema e de gosto como os merecedores da nossa maior atenção. Em arte, sobretudo na era (pós) industrial, não há defesa de meios ou de estéticas que não acarrete marginalizações. E, com isso, o risco de passar por cima do cinema de ruptura, ignorando o que ele pode nos ensinar, é muito grande. Penso que o seu texto cedeu a esse risco, e por isso escrevo.

    Saudações,
    Rodrigo Cássio
    ( http://vistoseescritos.wordprerss.com )

  7. Pedro Novaes 25-11-2009 2:18 pm

    Obrigado pelo comentário, Rodrigo, muito mais profundo e elaborado que meu texto que o enseja. Com calma, respondo. Abração.

  8. [...] This post was mentioned on Twitter by Pedro Novaes and Rodrigo Cássio, Rodrigo Cássio. Rodrigo Cássio said: O @pedronovaes publicou um artigo no blog Olho de Vidro que suscita importantes questões sobre o cinema atual. http://bit.ly/6AqBhP [...]

  9. Carlos Cipriano 25-11-2009 6:25 pm

    Acrescento aos argumentos do Rodrigo as constantes apropriações que a indústria cinematográfica e os filmes de narrativa clássica sempre fizeram das descobertas ou inovações empreendida pelos filmes de ruptura, inovações técnicas, estruturais, de linguagem. O experimental renova o clássico, é fonte de inspiração para a construção de outras formas de percepção do cinema.

  10. Rodrigo Cássio 25-11-2009 6:32 pm

    O @pedronovaes publicou um artigo no blog Olho de Vidro que suscita importantes questões sobre o cinema atual. http://bit.ly/6AqBhP

  11. Rodrigo Cássio 25-11-2009 6:38 pm

    O cinema é uma experiência em que estão envolvidos os realizadores, o público e a crítica. O debate é fundamental: http://bit.ly/6AqBhP

  12. Pedro Novaes 25-11-2009 8:13 pm

    @revistabula Claro. Para além da vaidade, parte do problema reside nisso: http://tinyurl.com/yfeugmq. @rodrigocassio fez um ótimo comment.

  13. [...] POST É UMA RÉPLICA AO COMENTÁRIO DO RODRIGO CÁSSIO NO MEU TEXTO “VANGUARDA SEM RETAGUARDA”.  SE NÃO OS LEU, SUGIRO [...]

  14. Yuri Vieira 8-12-2009 2:52 pm

    “Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.”
    (Fernando Pessoa / Bernardo Soares, “Livro do Desassossego”, Ed. Brasiliense, pág.385)

  15. Yuri Vieira 9-12-2009 1:56 pm

    “A ruína dos ideais clássicos fez de todos artistas possíveis, e portanto, maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida, a observância cuidadosa de regras — poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou de ser tida como criação, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista porque todos têm sentimentos.” (Fernando Pessoa / Bernardo Soares, “Livro do Desassossego”, Ed. Brasiliense, pág.383)

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