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Aprender com o Cinema de Ruptura
Posted By Pedro Novaes On novembro 19, 2009 @ 6:01 pm In Uncategorized | No Comments
Por Rodrigo Cássio [1]
(O TEXTO ABAIXO É UMA RÉPLICA AO POST “VANGUARDA SEM RETAGUARDA” [2]ABAIXO)
É sempre bom encontrar textos que refletem sobre o cinema, inclusive quando discordamos deles. A propósito, o espírito da discordância inteligente e produtiva é algo que anda raro, infelizmente. Talvez porque esse espírito tenha sido verdadeiramente forte apenas durante o cinema moderno, ou nos circuitos fechados da vanguarda.
Penso que o artigo extrai algumas conclusões impróprias de premissas que deveriam ser melhor debatidas, e gostaria de comentar sobre isso. Tratando-se de um texto que emite juízo de valor estético, há uma concepção de arte que fica velada, servindo-lhe de fundamento; ou seja, há uma predeterminação do bom e do mau filme, mas que não é posta em xeque nunca. Talvez essa ausência de uma análise dos próprios filmes seja o que simplifica, no texto, o significado do cinema clássico e do moderno, simplificando também as relações entre eles na era contemporânea. Sobretudo na parte final do artigo, isso me incomodou.
Ainda que, na primeira frase do parágrafo final, o texto tenha a precaução de não condenar o experimentalismo tout court, é patente a indisposição para com essa vertente, sintetizada nas cobranças por um aprimoramento técnico, ou na afirmação de que um gesto vanguardista, no Brasil, deveria ser posterior a algum tipo de profissionalização do cinema que consolidasse o alvo a ser contraposto por ele (o que pergunto é: qual a concepção de cinema que está por trás dessas cobranças? Afirmar a importância do aprimoramento técnico já é um ato que inibe alternativas diferentes. Não é possível defender certas práticas sem cunhar um significado do cinema.).
Quando é dito, então, que o experimentalismo é uma desculpa para que sejam feitos filmes ruins, essa tese carece de demonstração. Até mesmo se considerássemos, imprudentemente, que o conceito de filme ruim é algo muito claro e evidente, a discussão se tornaria estéril por causa da duvidosa assertiva sobre a intenção vanguardista dos cineastas. Seriam eles pessoas mal intencionadas, que levantam referências cinematográficas apenas como desculpa? Ou seriam preguiçosos arrogantes?. O cinema de ruptura (moderno/vanguarda) será mesmo esse vulto que paira sobre os cineastas atuais, prejudicando a todos? Não creio.
Do fato de que muitos filmes, ditos experimentais, possam ser considerados ruins, não resulta que o flerte dos cineastas com essa tradição é o que realmente deva ser questionado. Existem filmes ruins tanto do lado do cinema de origem clássica quanto do lado das rupturas! Ao contrário do que sugere o texto, não vejo o acesso ao cinema de ruptura como uma etapa que só é conseguida depois que os cineastas aprendem a fazer filmes, como em Hollywood. Nessa tese, há o deslocamento equivocado de um problema de formação estética e de construção da sensibilidade (problema do qual o artigo desdenha) para o domínio da realização.
Não é necessário dominar a técnica do cinema narrativo dramático para ser um Júlio Bressane (você conseguiria imaginar Bressane filmando um filme clássico? rs Aposto que ele simplesmente não seria capaz). A imensa maioria dos cineastas modernos e de vanguarda nunca realizou filmes clássicos. Todavia, a maioria destes mesmos cineastas foram ou são cinéfilos vorazes e pensadores do cinema. Apenas isso nos força a admitir que a formação dos cineastas (e também do público) não é uma falsa questão, e merece ser vista com outro olhar. Não é a inexistência de um cinema narrativo de características clássicas, localmente, que faz com que os nossos filmes pretensamente modernos sejam ruins, mas sim a inexistência de um ambiente no qual o gesto moderno de ruptura seja tomado em seu verdadeiro sentido e amplitude. Falta discutir e entender melhor o cinema, e não fazer mais filmes.
Nesse aspecto, o seu artigo já mostra que a assimilação das rupturas é um tanto quanto turva, hoje (o que não exclui que a assimilação do cinema clássico, em geral, também é deficitária; mas não necessariamente na prática). Entender que o princípio glauberiano da câmera na mão e uma ideia na cabeça foi sobretudo um lance de marketing é desprezar exatamente o que Glauber tem de mais importante para nos dizer. Afirmar que a vanguarda é uma moda, seja em suas diversas vertentes do século XX ou em seus legatários atuais, é dissimular o que é a vanguarda, a fundo, e qual a sua importância para o cinema (o termo MODA, aqui, chegaria a ser ofensivo para certos vanguardistas!rs). Na mesma linha, o ataque do artigo a um esquerdismo questionador de Hollywood é gratuito. A teoria crítica do cinema hollywoodiano é muito mais avançada do que supõe essa rejeição ideológica tão em voga, disseminada por certo neoconservadorismo, e que, na verdade, não faz nem cócegas nos teóricos de esquerda sérios, que existem inclusive no Brasil.
Por fim, eu concordo que experimentar não significa deixar de lado o apuro técnico e o planejamento. Mas acrescento que exigir apuro técnico, enfatizar os bons roteiros e insuflar o planejamento meticuloso que resulta na boa imagem são gestos que estabelecem, necessariamente, um tipo determinado de cinema e de gosto como os merecedores da nossa maior atenção. Em arte, sobretudo na era (pós) industrial, não há defesa de meios ou de estéticas que não acarrete marginalizações. E, com isso, o risco de passar por cima do cinema de ruptura, ignorando o que ele pode nos ensinar, é muito grande. Penso que o seu texto cedeu a esse risco, e por isso escrevo.
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[1] Rodrigo Cássio: http://vistoseescritos.wordpress.com/
[2] “VANGUARDA SEM RETAGUARDA” : http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2009/11/18/vanguarda-sem-retaguarda/
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