Sertão Filmes

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Entre o Clássico e o Moderno

Por Rodrigo Cássio

(O TEXTO ABAIXO É UMA RÉPLICA AO POST “VANGUARDA SEM RETAGUARDA II” ABAIXO)

Caro Pedro,

Bela réplica. Fico feliz por ter provocado um desdobramento positivo do seu texto. O debate agora ficou mais claro, menos taxativo e mais frutífero.
Penso que concordamos bem mais do que no post anterior. E me veio à mente o quanto a patrulha ideológica é um tema que lhe preocupa. Talvez a minha maior – ou única – discordância, agora, seja a respeito do grau de responsabilidade desse patrulhamento quanto aos problemas que você aponta no contexto atual.

Talvez você o compreenda de maneira superlativa. Não sem alguma razão: é fato que a rejeição a Hollywood caracteriza o pensamento crítico mais sólido que se construiu no Brasil, sobretudo na academia (o legado da Usp, especialmente), e isso tem consequências na maneira como as novas gerações são formadas. Dialeticamente, chega a hora em que se forma uma reação ao que compôs a hegemonia, inclusive quando se trata de uma hegemonia contra-hegemônica, rs.

Mas considero, no entanto, que é indispensável separar o que é a teoria do que é a sua vulgarização – e isso você mesmo faz, no novo texto. O que eu diria, a partir disso, é que a vulgarização da crítica a Hollywood, geradora do seu incômodo, já é algo que se perdeu da origem dessa crítica. De certo modo, se há um MODISMO na crítica a Hollywood, reverberado por uma nova geração, o que há, no fundo, é o amortecimento dessa crítica: os modismos são fenômenos estreitamente ligados ao modus operandi da indústria cultural.

O que observo é que, muitas vezes, a ingênua antipatia para com Hollywood pode ser apenas o sintoma de que ela ainda é hegemônica, e que o antipático não saiu da sua zona de influência, por assim dizer. Nada disso garante bons frutos, bons filmes. Do mesmo modo que não há bons frutos na mera reprodução dos produtos audiovisuais menos interessantes, transformados na maior referência dos consumidores junto com a vasta presentificação da televisão nos anos 1970, o que acompanhou mudanças grandiosas na maneira como são recebidos os filmes, assim como nas expectativas que os artistas depositam neles (estes consumidores de hoje tornam-se diretores de cinema, mas sem terem ido muito ao cinema).

Aqui, insisto na ideia de que uma crítica esquerdista vulgarizada é tão perniciosa quanto a admissão acrítica de Hollywood – e se é para escolher um alvo, positivamente, eu escaparia do viés ideológico para vislumbrar, fazendo coro com alguns trechos da sua réplica, uma melhor formação do espectador, dos realizadores, e também da crítica.

A Nouvelle Vague celebrou o cinema clássico. Glauber Rocha assimilou a estrutura dos westerns. Truffaut era um admirador incondicional de Hitchcock. Se Godard desconstruiu o cinema de estúdios, foi para reconstruí-lo desvelando o ilusionismo e o que há de mágico na sua relação com os espectadores. Etc, etc. Tudo isso é pauta para mostrar que clássico e moderno não são duas coisas estanques; o contemporâneo, então, está ai para ser feito. Nesse ponto, estamos, sim, de pleno acordo.

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