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Cine brasileiro X Cine Argentino

Posted By Pedro Novaes On abril 4, 2010 @ 2:24 pm In Crítica | 15 Comments

A superioridade do cinema argentino, no campo narrativo-ficcional ao menos, em relação ao cinema brasileiro, é inegável. Isso vem sendo dito há algum tempo, por exemplo, por Jean Claude Bernardet [1]. Essa polêmica se reacendeu com o Oscar para a obra-prima “O Segredos dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella, e sua estréia agora por aqui.

Nesta semana que passou, o artigo abaixo reproduzido, de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha, provocou reações extremadas. Embora concorde com muitas das coisas que ele diz e discorde de outras (como o retrato raso e bobo que faz de Glauber Rocha), considero que seu maior pecado é o tom, que colabora pra tornar ainda mais irracional um debate, a meu ver, dos mais importantes. Na minha opinião, o texto, também colado abaixo, de José Geraldo Couto [2] vai muito mais ao cerne da questão e resume de maneira brilhante o que coloca a narração ficcional no cinema argentino num patamar acima do nosso.

A INVEJA DO CINEMA ARGENTINO

Por José Geraldo Couto

Não é de hoje que suspiramos de inveja do cinema argentino. Há quase dez anos o crítico Jean-Claude Bernardet já dizia: os argentinos estão nos dando um banho em matéria de cinema.

A cada bom filme novo argentino, como este “O Segredo dos Seus Olhos”, o suspiro se renova. Mas em que consiste o segredo da superioridade, suposta ou real, do cinema argentino?

Há que lembrar, antes de mais nada, que toda generalização é burra, mas sem algum grau de generalização também é impossível pensar. Assim como há vários cinemas brasileiros (de Fabio Barreto a Julio Bressane, de Beto Brant a Cacá Diegues, de Daniel Filho a Tata Amaral), existem também vários cinemas argentinos, cobrindo um espectro que vai dos filmes de grande bilheteria, como “O Filho da Noiva”, “Nove Rainhas” ou “O Segredo dos Seus Olhos”, à obra mais pessoal, “outsider”, quase “miúra”, de uma Lucrecia Martel (“O Pântano”, “A Menina Santa”, “A Mulher sem Cabeça”), passando pelos caminhos intermediários de um Pablo Trapero ou um Daniel Burman. Isso sem falar da produção de autores mais veteranos, como Fernando Solanas ou Luis Puenzo.

Mas é possível detectar algumas tendências gerais, tanto na variegada filmografia argentina como na igualmente variegada filmografia brasileira. E a meu ver a nossa desvantagem não é da ordem da competência técnica ou dos cuidados de produção, mas sim de natureza estética e narrativa. Vou tentar me explicar.

Espaço para a ambiguidade

O que chama a atenção, no cinema argentino em geral, de Juan José Campanella a Lucrecia Martel, em comparação com o grosso da produção brasileira, é o modo indireto, oblíquo, com que os “grandes assuntos” (políticos, sociais, morais) são abordados. O interesse desses filmes parece estar sempre voltado para os personagens e sua relação com o espaço físico e humano que os cerca – o que, de certo modo, é a base de todo o cinema que não seja “de tese”. O contexto social e político entra pelas bordas, não arromba a porta da frente.

Há quase sempre nos filmes argentinos, em maior ou menor medida, uma sutileza que respeita a inteligência do espectador, tratando-o como um ser adulto, pensante. Há, habitualmente, espaço para a ambiguidade e a indefinição.

Os filmes brasileiros, com as exceções que confirmam a regra (e sem falar dos documentários, que são um caso à parte), parecem sucumbir sob o peso da intenção de “dizer coisas” sobre a “realidade”. Ou então se rendem acriticamente aos modelos de entretenimento emprestados da televisão, seja das telenovelas ou dos esquetes humorísticos. Em outras palavras: ou são declaratórios, enfáticos, ou quase desprovidos de inteligência. Em qualquer dos dois casos, tratam o espectador com paternalismo.

Essa tendência não respeita diferenças de gênero ou de estilo. Abarca desde as alegorias de um Cacá Diegues (“Orfeu”, “Deus É Brasileiro”) até a brutalidade frenética de um “Cidade de Deus” ou um “Tropa de Elite”, passando pelo cinema didático-social de Sérgio Resende (“Salve Geral”) ou José Joffily (“Olhos Azuis”). No outro extremo (o do mero interesse comercial), as comédias televisivas de Daniel Filho ou os melodramas apelativos de Fabio Barreto. O que há em comum entre essas obras díspares é o fato de entregar pronto e mastigado ao público o que este deve sentir ou pensar.

Para que este balanço sumário não soe unilateral e leviano, cito alguns filmes brasileiros recentes que respeitam a inteligência autônoma do espectador. Mais que isso: que contam com ela para a sua eficácia. Refiro-me a “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert, “No Meu Lugar”, de Eduardo Valente, “O Amor Segundo B. Schianberg”, de Beto Brant, e “Quanto Dura o Amor”, de Roberto Moreira. Há outros, certamente. Assim como deve haver filmes argentinos paternalistas/didáticos/enfáticos (os de Solanas, por exemplo). Problema deles.

O OLHAR DA CÂMERA

Por Luiz Felipe Pondé

O Oscar do filme “O Segredo dos Seus Olhos” foi um prêmio mais do que justo para o cinema argentino. O cinema de “los hermanos” é melhor do que o nosso. E digo isso com lágrimas nos olhos porque sou envolvido diretamente na formação de novos cineastas no Brasil. E por que não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?

Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social.

Começaria perguntando o seguinte: a arte deve ser política? Não. Muitas vezes isso atrapalha. E mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes, como no caso do “Segredo dos Seus Olhos” e o tratamento do ambiente pré-ditadura na Argentina, que não é foco principal do enredo. A política mata a arte, tornando-a datada como um panfleto qualquer. A política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses. Quando ela se faz mais do que isso, fica mentirosa ou ridícula.

Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.

Outro problema é o culto dispensado a figuras como Glauber Rocha. Se ele foi “revolucionário” em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de “cinema novo” sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado. Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma “historinha” que parece ter sido escrita em centros acadêmicos de gente de 18 anos (nos anos 60 e 70), que pouco revela da vida real e a sangria moral e existencial que ela realmente é.

Lembremos que foi o próprio Glauber que escreveu em meados dos anos 60 que Machado de Assis seria esquecido porque não captou a luta de classes no período do Segundo Império no Brasil. Meu Deus, tenha piedade dele, porque não sabia a besteira que falava! Machado de Assis é eterno, enquanto ele, assim que a maioria dos formadores dos jovens cineastas pararem de idolatrá-lo, poderá ser confundido com a lata de lixo da história do cinema nacional.

Algumas obsessões de conteúdo, ao meu entender, travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco. Com raras exceções. A força do jovem está no ato de emprestar aos dramas humanos ancestrais a beleza de seu encantamento, desprendimento, coragem e futuro desencantamento.

Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social, enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a “indústria do bem” não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela… Nordeste, fome…

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu “dormirem” um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.

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[1] Jean Claude Bernardet: http://jcbernardet.blog.uol.com.br/

[2] José Geraldo Couto: http://blogdozegeraldocouto.folha.blog.uol.com.br/arch2010-02-28_2010-03-06.html#2010_03-03_15_19_39-144312874-0

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