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O cinema de John Ford: vitória moral
Posted By Yuri Vieira On novembro 29, 2010 @ 5:17 pm In Direção,diretores,Teorias & Conceitos | No Comments
« Operada a necessária distanciação, que pode motivar um julgamento mais profundo, creio que a obra de John Ford [1] resiste e persiste. A pureza da sua encenação, sempre imediatamente visual, sempre simples – e portanto essencial – assenta sobretudo na sugestão dinâmica do enquadramento (“moving picture” em que tudo ocorre), na “montagem invisível” dos planos quase sempre fixos, sem efeitos nem piruetas técnicas, e na qualidade humana das personagens, levemente carregada no bem e no mal, que as torna fascinantes diante do espectador.
« Qualquer filme de Ford, nos últimos anos sem certos formalismos naturalistas ou expressionistas que prejudicavam a sua veia mais genuína, é um apelo à vida, à esperança, à possibilidade de os homens se encontrarem, mesmo que para tal encontro tenha de ser usada a força. É o sentido da comunidade, da família, do homem nascido da terra e da tradição, buscando as suas verdadeiras raízes, que preocupa o cineasta, que na pureza dos espaços livres do Oeste, do mundo dos pioneiros, ou nos raros refúgios de paz encontra as linhas depuradas de união.
« Os dois John Ford, de que falava Domingos Mascarenhas, acabam por ser um único, pois toda a sua obra é afinal uma obra visão, aparentemente contraditória, defendendo aqui a actualidade para logo ali lhe preferir a lenda, propondo numa altura certas figuras de chefe para sugerir mais adiante a rebeldia de uns quantos, esquecendo várias vezes a mulher para logo a valorizar, cantando os feitos da cavalaria americana para defender depois o povo índio contra essa mesma cavalaria.
« Essa duplicidade funciona sobretudo ao nível da visão dos filmes, quase sempre muito directos e muito fáceis de entender numa primeira apreciação, muito mais profundos e subtis para lá dessa visão inicial de superfície, ricos de pormenor, de observação humana, de original entendimento das coisas.
« Tal processo de aparências é sobretudo detectável de modo como constrói a vitória das suas personagens centrais, aparentemente derrotadas, mas glorificadas nessa mesma derrota, vencedoras no plano dos valores, símbolos de algo perene que ultrapassa o homem. Talvez por isso os seus “heróis” sejam personagens secundárias da história, mas ricas de humanidade e sabedoria, verdadeiros amigos, marcos evidentes da família humana.
« A sua ideia mais profunda é a do retorno às origens, uma espécie de renascer que, como católico, o leva a adoptar o pensamento essencial da Ressurreição. E, se me dessem a escolher, dentre as muitas frases-chave da sua obra, escolheria com certeza as palavras finais de “Homens para queimar [2]” [no Brasil, “Fomos os sacrificados”], quando os sobreviventes caminham ao longo da praia abandonada, sem rumo certo, mas com a certeza de que os seus passos levam a melhores dias: “We shall return” – havemos de voltar.»
_____Fonte: John Ford [3], de Luis de Pina.
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[1] John Ford: http://www.imdb.com/name/nm0000406/
[2] Homens para queimar: http://www.imdb.com/title/tt0038160/
[3] John Ford: http://books.google.com.br/books?id=z1DYPAAACAAJ
[4] Wim Wenders: conselhos de um mestre: http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2010/02/26/wim-wenders-conselhos-de-um-mestre/
[5] Tensão Pré-Menstrual (TPM) – uma história de horror: http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2010/11/29/tensao-pre-menstrual-tpm-uma-historia-de-horror/
[6] Fundamentos da arte de escrever roteiros para cinema: http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2009/11/24/fundamentos-da-arte-de-escrever-roteiros-para-cinema/
[7] Aprender a dirigir filmes?: http://olhodevidro.sertaofilmes.com/2009/10/07/aprender-a-dirigir-filmes/
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