Arquivo de dezembro de 2010
Cinema X Vídeo: A Questão da Escala
Escala é um problema a que nem todos os diretores dedicam a atenção necessária quando pensam seus enquadramentos e fazem suas escolhas no set e na ilha de edição. Parece óbvio quando dito, mas nem todo mundo se dá conta: faz toda a diferença se o filme vai ser exibido na televisão, numa sala de cinema ou numa tela de computador.
Walter Murch, o mestre hollywoodiano da montagem, edita sempre com um bonequinho de papel à frente da tela do computador – feito na proporção de um espectador na sala de cinema -, como forma de se lembrar do tamanho das imagens e da maneira pela qual essa resolução afeta nossa percepção delas.
David Bordwell afirma ser perceptível a mudança gradual de ênfase nos planos – com uma predominância crescente de planos mais fechados – à medida em que o uso do video assist se popularizou nos sets de cinema ao longo do tempo. Tendo um monitor pequeno como referência, os diretores tendem a julgar de forma equivocada a visualização de objetos, feições e movimentos nos planos e acabam preferindo enquadramentos mais aproximados, que assegurem a percepção plena de reações ou detalhes de uma determinada cena.
Há algum tempo atrás dirigi um comercial que seria veiculado apenas em salas de cinema. Em uma das cenas, a atriz segurava um cartaz, de aproximadamente 150 X 100 cm que continha determinado conteúdo que deveria ser visualizado pelos espectadores. De nada adiantaram meus argumentos junto à agência de que um plano médio, com a atriz de corpo inteiro em quadro, seria mais do que suficiente – e mais elegante – para uma tela de cinema, onde o cartaz ganharia quatro vezes seu tamanho real, e de que encher a tela com um close do objeto resultaria em uma imagem agressiva e, no fim das contas, feia. Como eu não dispunha de uma tela de cinema para embasar meu argumento, a agência insistiu. O resultado na tela grande ficou medonho.
Essa falta de reflexão sobre escala se soma ainda a vários outros fatores para reforçar a predominância do uso de planos americanos e primeiros planos. Primeiro, a necessidade de narrativas na média muito pobres de não deixar margem de dúvida para o espectador, o que, de certa forma, equivale a confiar pouco em sua inteligência: tudo deve ser esfregado em sua cara e reiterado repetidas vezes, se possível. Segundo, sobretudo na publicidade, orçamentos baixos impedem um trabalho de arte mais esmerado nas locações: não dá pra ficar mostrando demais os ambientes. Por fim, há a escolha de caminhos já conhecidos e algoritimos mais seguros de decupagem de sequências pelos diretores. É mais fácil montar trabalhando com planos mais fechado do que fazer planos-sequência e trabalhar com uma mise-en-scene elaborada, que demanda muito ensaio e marcação com os atores. Sobretudo se o cronograma for apertado, acaba sendo mais fácil dividir cena em vários planos.
Não obstante as restrições de orçamento e tempo, é fundamental dedicarmos reflexão e treinarmos o olhar para calibrar enquadramentos na escala mais adequada.
Imprimir | 2 comentáriosRio (2011) – trailer
Uma animação tendo o Rio de Janeiro como cenário será o máximo!
Rio (2011), direção de Carlos Saldanha, no IMDB.
Imprimir | Sem comentáriosMelhores de 2010
Teve muito filme bom, vai dizer? Não consegui ficar só em 10.

1) O Segredo dos Seus Olhos
Não precisa dizer muito. É o melodrama no que tem de melhor, roteirizado e conduzido com maestria por um cineasta que sabe como ninguém onde pisa nesse território minado. Mais que saber estruturar um excelente melodrama, Campanella consegue tecer uma teia brilhante unindo uma história de amor, um crime e, como pano de fundo, a história da Argentina.
2) A Fita Branca
Sombrio e seco, o filme explora, nas palavras do próprio diretor, as condições sociais e históricas de surgimento do nazismo, falando de episódios de violência numa pequena aldeia alemã às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Como tal, o filme pulsa violência reprimida, sem que exiba uma única gota de sangue. A magistral fotografia em preto e branco e tudo o que não é dito, mostrado e explicado, constroem uma atmosfera sufocante merecedora da Palma de Ouro em Cannes.
3) Um Homem Sério
Os irmãos Coen todos os anos compõem qualquer lista dos melhores do ano. Dispensam comentários. Um Homem Sério é um cruel e irônico retrato de um anti-heroi.
4) Além da Estrada
O filme brasileiro-uruguaio foi talvez a mais grata surpresa do ano. Sensível, delicado, simples e bem realizado, é um road movie que respira liberdade: na idéia singela – um jovem argentino dá carona a uma garota belga viajando de carro pelo Uruguai e os dois, enquanto desenvolvem uma relação, vão conhecendo personagens -, no roteiro, que não precisa de reviravoltas a cada cinco minutos, com bem observou o Inácio Araújo, nas excelentes interpretações dos protagonistas, na bela fotografia, nas surpreendentes e intensas entradas de não-atores – personagens reais que interagem com os personagens da ficção, dando um impressionante ar super-realista a certas sequências, e no estilo de cinema-direto, sem frescuras, dos enquadramentos e da montagem. Um puta filme.
5) Se nada mais der certo
Belmonte se dá bem e surpreende trilhando um território perigoso: o dos personagens urbanos fodidos. O cinema nacional já derrapou e capotou demais nessa arena super-explorada, cheia de clichês, de visceras expostas e sociologia barata. Com atuações geniais de Cauã Reymond, João Miguel e Milhem Cortaz, entre outros, o filme toca por construir personagens complexos e por se esquivar de fazer sociologia, sem deixar entretanto de dar recado sobre o lugar social dos personagens – sutil, complexo e contraditório -, tratando o espectador como ser inteligente. Nem a forte escorregada na conclusão, com um final bobo babalorixaico-místico, diminui esse grande filme.
6) Os Famosos e os Duendes da Morte
Junto com “As Melhores coisas do Mundo”, o filme de Esmir Filho é o maior sopro de ar fresco recente do cinema nacional, exemplo de que é possível fazer poesia sem ser hermético e cabeça, e de que é possível contar histórias sem script doctors. Ecos de Angelopoulos em algumas cenas. Lindo.
7) Toy Story 3
A Pixar é hoje o fino do fino da maestria hollywodiana para contar histórias. Que filme inteligente, engraçado e sensível. Que refinamento ser capaz de fazer um roteiro que agrada e faz rolar de rir pessoas de qualquer idade.
8 ) As Melhores Coisas do Mundo
Foi um grande ano para o cinema brasileiro. Também pelas bilheterias, mas sobretudo por um conjunto de filmes sensíveis, que revelam o grande talento de alguns roteiristas e diretores. “As Melhores Coisas do Mundo” demonstra que é possível fazer filmes inteligentes para um grande público e fazer filmes interessantes sobre pessoas que não moram na favela, nem estão em crise existencial.
9) A Prova de Morte
Tarantino at his best.
10) Abutres
Mais uma vez, a sensibilidade de um realizador argentino consegue entrelaçar, sem forçar a barra, histórias de indivíduos, construindo personagens complexos, a questões sociais importantes, sem fazer panfleto, coisa de que o cinema brasileiro ainda tem dificuldade. Mais uma grande interpretação de Ricardo Darin. O cara não para.
11) Fôlego
Kim Ki Duk à altura do Kim Ki Duk de “Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera”. A mesma câmera fazendo as paisagens falarem. Os mesmo silêncios carregados. Genial.
12) Vício Frenético
Nicolas Cage simplesmente incrível no papel principal. Werner Herzog de volta a toda.
13) Viajo porque Preciso Volto porque te Amo
Karim Ainouz. Não precisa dizer mais nada. Um puta exercício, que ganha tamanho em proporção à sua despretensiosidade. Muito bonito. We love you, Karim.
A Queda de um Cineasta
A Queda de um Cineasta – (paródia de A Queda) from Karaloka on Vimeo.
Nesta paródia do filme “A Queda” (Der Untergang), Hitler pretendia rodar um longa-metragem sobre sua fuga, num submarino, até o exílio secreto no Brasil. Mas algo deu errado…
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