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10 Melhores Filmes de 2009

Taí, com um pouco de atraso, a lista mais importante do ano: os 10 melhores filmes de 2009 na minha inquestionável opinião. Avisem à grande mídia.
1) Gran Torino: nenhum diretor vivo sabe se servir tão bem da potência do melodrama como Clint Eastwood. O sujeito é o mestre do gênero. Gran Torino é, como bem colocou o Ismail Xavier, um faroeste moderno, uma reelaboração da fábula do velho cowboy enferrujado que já não se encaixa no presente, mas que segue a seu modo fazendo o bem. É também uma complexa e sutil visão do confronto entre a América tradicional e os Estados Unidos de hoje.
2) Corumbiara: um dos melhores documentários brasileiros de todos os tempos. Um filme cuja grandeza é sublinhada sobretudo pela simplicidade e robustez de sua linguagem: sem frescuras, sem grandes recursos técnicos, na fotografia crua da câmera na mão em lugares remotos, sem trilha sonora. Mas são duas horas de choque elétrico na veia – na pujância e subversão do universo indígena, na crueldade e na frieza do massacre que documenta, revelando sem palavras a ossatura do Brasil, construído sobre milhares de corumbiaras.
3) Entre os muros da escola: desses filmes que fascinam pelas possibilidades de um cinema que caminha cada vez mais sobre o fértil e ilusório muro que separa (??) documentário e ficção. De que outra forma se poderia explorar mais profundamente uma realidade, a da imigração numa Europa cada vez mais africana, que, à custa da mistura, se torna cada vez mais difícil de nomear?
4) Bastardos Inglórios: interpretações memoráveis e um Tarantino mais em forma do que nunca na sua habilidade em oferecer o filme como espelho para os desejos e emoções do espectador. A cena do massacre final no cinema merece entrar para o cânone das mais memoráveis da história do cinema.
5) Anticristo: se não pelo manejo magistral da linguagem e pelo roteiro efetivamente angustiante, o filme merece a lista pela polêmica causada.
6) O Equilibrista: um documentário dos mais emocionantes na sensibilidade e sutileza com que expõe um tema e um personagem escorregadios pelo risco sempre vizinho do melodrama. Um passo em falso e o sujeito seria posto num pedestal de coragem e bravura ou atirado no território da loucura. E no entanto o que vemos é tão somente um homem. Sem falar em todo o não dito – e que dito estragaria tudo – sobre o fato de que a base do sonho da vida desse homem já não existe, pois as Torres Gêmeas ruíram. Ninguém nunca mais repetirá o que ele fez. Escapar à tentação de dizer este tipo de coisa que, no fundo, não precisa ser dita, mas que cutuca um cineasta todo o tempo implorando para ser dita, é o que revela a tessitura de um grande documentarista.
7) Avatar: à guisa de crítica tem-se dito que o roteiro é uma mistura de Dança com Lobos e Pocahontas engrandecida pelos efeitos visuais espetaculares. E é isso mesmo. Mas Joseph Campbell e Cristopher Vogler há tempos nos mostraram que a história é sempre e a mesma, não é verdade? Pelo menos quando falamos de melodramas e do cinema clássico. E o que Cameron e sua equipe fizeram em termos de conceito visual e computação gráfica é de fato de cair o queixo. Deixem o mal humor de lado e permitam-se celebrar as possibilidades de Hollywood.
8 ) Abraços Partidos: não é o melhor Almodóvar, mas é muito bom. E é um Almodóvar diferente, mais contido, um filme em que os homossexuais não estão no proscênio, com as vísceras menos expostas. Tomara seja um filme de transição rumo a novos territórios. Me choca, pelo que revela de segurança e domínio da linguagem, a capacidade dele para, no filme dentro do filme – o “Chicas e Maletas” – , parodiar a si mesmo, fazendo uma espécie de comédia antiga de Almodóvar. Só um mestre como ele.
9) O Casamento de Rachel: tem um quê de John Cassavettes esse filme, num roteiro também a meu ver delicado sobre um tema também difícil pela vizinhança ameaçadora do melodrama. Remete também ao mestre na câmera na mão, nas interpretações espontâneas e frequentemente desconcertantes que dão uma sensação muitas vezes de documentário e nos fazem sentir como se invadindo uma festa de família.
10) O Visitante: um roteiro grande pelo que tem de singelo e humano. Fantástica a interpretação indicada ao Oscar de Richard Jenkins.
Imprimir | 1 comentárioVanguarda sem Retaguarda II
ESTE POST É UMA RÉPLICA AO COMENTÁRIO DO RODRIGO CÁSSIO NO MEU TEXTO “VANGUARDA SEM RETAGUARDA”. SE NÃO OS LEU, SUGIRO FAZÊ-LO, ANTES DE LER ESTE TEXTO.
Caro Rodrigo,
Acho que há várias questões que se entrelaçam e sobrepõem no meu texto e que a brevidade dele de fato deixa obscura a maneira exata pela qual entendo que essas conexões se dão.
Há uma primeira questão que é a daquilo que provocativamente chamarei de “ditadura do experimentalismo”, talvez mais forte no seio da crítica e no meio acadêmico do que entre os realizadores. Esta visão privilegia uma visão intelectualizada e artística do cinema e desdenha de qualquer pendor por um cinema de entretenimento. Caudatária de um certo raciocínio esquerdista, ela inibe a crítica e o livre pensamento ao mitificar e tornar obrigatória a reverência a certas vanguardas, sobretudo à Nouvelle Vague e ao Cinema Novo. Ao mesmo tempo, diminui a importância do cinema hollywoodiano, no sentido artístico, e o enxerga apenas por um atávico viés marxista como instrumento de dominação ideológica do capitalismo. É claro que isso não é uma visão monolítica e que a realidade é mais cheia de sutilezas do que essa breve tentativa de descrição, mas me parece difícil negar que haja uma certa veneração vazia, mais por efeito manada do que por sensibilidade e análise, de certas vanguardas, simplesmente porque “se você não gosta de Godard e Glauber, você é um alienado”, para expressá-lo de forma ligeira.
Quero deixar claro que gosto imensamente de Glauber e Godard, como gosto de Truffaut, Bergman, Fellini, John Cassavettes, Kurosawa, Hitchcock, Almodóvar, Woody Allen, Wong Kar Wai, Spielberg, Clint Eastwood e outros, vanguardistas e não-vaguardistas. O que não gosto é de patrulha ideológica (por favor, não ache que eu o estou acusando disso; longe de mim) e não gosto de nada que se coloque no caminha da liberdade de pensamento e crítica.
Segundo, e mais importante – e na verdade acho que no fundo estamos de acordo -, há um desprezo grande da parte do jovens realizadores pelo estudo e pelo conhecimento da linguagem cinematográfica, que só se logra através do aprofundamento teórico e da análise de filmes. E a isso se soma algo que menciono no texto, mas que talvez seja até secundário nesse contexto, que é uma certa idéia ilusória da criação artística como um processo meramente intuitivo e independente de aperfeiçoamento, absolutamente desconectado da esfera da razão e da técnica.
Assim, quando digo que para experimentar é preciso compreender primeiro a linguagem do cinema clássico, sem dúvida estou simplificando. É preciso compreender a linguagem do cinema como um todo. Aliás, mais que nos filmes hollywoodianos, para entender plenamente certos filmes das vanguardas é preciso desenvolver sensibilidade e compreender o contexto histórico de sua criação: com quem falavam e por que para entender o que falavam, concorda? Nunca disse, no entanto, que é preciso primeiro fazer filmes como se faz em Hollywood para depois experimentar. Mas é preciso entender a linguagem do cinema clássico para poder criticá-lo e também para não servi-lo cega e estupidamente.
Quando digo que o mote glauberiano de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” foi um lance de marketing concedo que o risco de uma interpretação errônea é alto. O que ele queria dizer é exatamente que não precisamos de todo o aparato do cinema industrial para fazer bons filmes e, mais que isso, como você bem coloca, que para fazer filmes que falassem (ou falem) das questões que nos interessam (ou interessavam à época), tínhamos (ou temos) que fugir desse processo industrial tal e qual estabelecido por Hollywood (e nas tentativas de emular um cinema hollywoodiano no Brasil).
Parece-me inegável também entretanto que o mote cai como uma luva e que, conscientemente ou não, é apropriado por um conjunto de jovens realizadores que despreza a teoria – embora muitas vezes finja que estuda -, critica sem entender de fato o cinema americano, e do outro lado venera dogmaticamente, sem entender de fato tampouco, os cinemas de vanguarda.
Por fim, acho que o que não fica explícito no texto, é que acho que muitos desses jovens realizadores gostariam de abraçar um tipo de cinema mais próximo do cinema clássico, mas que não o fazem por medo, diante da pressão ideológica que dita que há um cinema do mal (capitalista, imperialista, ideologizado) e um cinema do bem (de esquerda, com preocupações políticas e sociais) e pela ilusória facilidade de manipulação oferecida pela tecnologia digital. É a eles que se dirige, penso, o tom meio provocativo e simplificador do texto. E é a eles que diria jocosamente: “Saiam do armário! Não vão queimar no fogo do inferno por gostarem de Spielberg ou não gostarem de Terra em Transe. Mas estudem e assistam filmes. Entendam por que Spielberg faz os filmes que faz e por que Glauber fez os filmes que fez.”
O ser humano – sobretudo os jovens como nós – tem um pendor pelo maniqueísmo. E o que me parece é que, para muitos jovens realizadores, o mote é lido como um apelo a certo purismo e radicalismo ingênuos, como consequência de uma oposição incontornável entre um cinema do bem e um cinema do mal. Criticar esse maniqueísmo e extremismo, entretanto, não significa também aderir cegamente ao modelo do cinema industrial.
Isso não quer dizer portanto que o cinema de vanguarda paire como um vulto sobre os cineastas atuais, prejudicando-os, como você pergunta. O que paira como um vulto, a meu ver, é uma certa compreensão simplificadora da oposição entre clássico e moderno no cinema, a falta de formação teórica e talvez sobretudo um ambiente avesso ao debate. E neste ponto insisto que a hegemonia de certos cacoetes esquerdistas (o que não é desdenhar da crítica embasada de viés esquerdista ao cinema de Hollywood) é um dos pilares desse ambiente árido e acrítico, além também das vaidades pessoais, a meu ver exacerbadas numa cidade como a nossa que, apesar de toda a modernização e cosmopolitização, conserva o ranço da província, onde o que é de fora é ao mesmo tempo referência de qualidade e profunda ameaça, e onde as relações humanas se embasam, mais ainda que nos grandes centros, apenas em critérios de pessoalidade e cordialidade, no melhor sentido de Sérgio Buarque de Holanda. Espero que, com esse tímido debate e quem sabe sua ampliação, possamos dar nossa contribuição à gradual transformação deste ambiente inóspito à razão.
Por fim, concedo que o texto, tal como foi escrito, coloca um peso excessivo no domínio da técnica, o que não reflete de fato o que penso. O importante é dominar a teoria, como explicitação da(s) linguagem(ns) e da estrutura narrativa do cinema, o que é indissociável do ato de assistir filmes e procurar entendê-los. É isso que paulatinamente leva ao aguçamento da sensibilidade necessária para se fazer bons filmes e nos dá pistas para responder à pergunta do que precisamos para desenvolver uma cinematografia relevante aqui poe estas bandas.
Grande abraço,
Pedro.
Imprimir | 3 comentáriosVanguarda sem Retaguarda

Walter Murch, o grande montador de cinema, profissional oscarizado por trás de filmes como “Apocalipse Now” e “O Paciente Inglês” não é um saudosista da moviola. Ele fez com tranquilidade a transição para o digital e a edição não-linear, mas é lúcido, reconhecendo que há ganhos e perdas nas mudanças tecnológicas. Entre estas, ressalta que a tecnologia digital, pelo seu custo infinitamente menor e pela possibilidade de desfazer erros, fomenta certo desleixo no processo de trabalho e sobretudo falta de cuidado com o planejamento. Montar em película, com o alto custo de cópias adicionais em caso de erros para remontar uma sequência, sempre obrigava a equipe a maior organização e a pensar muitas vezes antes de lançar mão da tesoura.
O mesmo vale, sem dúvida, para o set de filmagem. Rodar em película obriga a muito planejamento e a ensaios exaustivos com os atores, pois na hora em que se dispara a câmera, tudo tem que funcionar, tendo em vista o preço do negativo e também, claro, o custo da equipe e equipamentos mobilizados.
O custo comparativamente menor para a captação de imagens digitais – mídia regravável, equipes menores, câmeras mais baratas – e a ilusória facilidade de manuseio das câmeras digitais têm induzido, sobretudo os jovens realizadores, a uma cultura de desleixo com o planejamento dos filmes. Captar imagens de fato é fácil. Difícil é captar imagens de qualidade, com alto valor agregado e transformá-las num filme de qualidade. Fato é que o famoso mote glauberiano do Cinema Novo, de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, perdeu sua validade. Na verdade, ele nunca teve validade para além de uma idéia-força ou lance de marketing, pois mesmo Glauber e os outros cinema-novistas conheciam profundamente seu ofício e planejavam seus filmes com cuidado antes de disparar a câmera.
A essa ilusória facilidade do digital, que sugere podermos abrir mão do planejamento, une-se, a meu ver, de maneira deletéria, a moda do experimentalismo. Soma de um equivocado pensamento esquerdista, que vê nos filmes narrativos a dominação cultural de um formato imposto pelo cinema americano, à enganosa idéia de que a criação seria produto de um mero ato de inspiração, sem qualquer participação da razão e de técnicas, esta visão tem levado a uma preocupante predominância de filmes não-narrativos entre os curtas produzidos no Brasil e a filmes com pouco ou nenhum apuro técnico, pois no final o que importaria seria apenas “a idéia na cabeça”. Com todas as palavras, o experimentalismo tem sido usado como desculpa para produzir filmes ruins e colocar a culpa na falta de cultura e sensibilidade do espectador pelas diminutas platéias.
Pior ainda, esta moda do experimentalismo, típica de uma visão pós-moderna, em que tudo se justifica em si mesmo e auto-determina seu valor, tem levado a uma formação muito deficiente de roteiristas no país. Escrever roteiros é 10% de inspiração e 90% suor e técnica, técnica esta que o cinema vem desenvolvendo e apurando há um século.
O mais engraçado é a idéia de que se está fazendo cinema de vanguarda, ao promover supostas inovações de linguagem. Ora, mas uma vanguarda é sempre algo que se faz em contraponto a uma certo ponto de vista e modo de fazer dominante numa arte, não? Como então falar em vanguarda se mal conheço e compreendo de fato o caminho tradicional já consolidado?
Acabo de retornar do 1o Curta Carajás, o Festival de Cinema de Parauapebas, no Pará. Assistimos, ao longo de cinco dias, a 48 curtas de 16 estados diferentes do país, uma bela amostra de nossa produção recente de filmes curtos – 29 ficções, 16 docs e 3 animações. A maioria dos curtas de ficção tem roteiros que fogem de uma estrutura narrativa clássica, isto é, uma história com começo, meio e fim, onde se apresenta uma pergunta que a conclusão do filme responderá ou onde uma situação em desequilíbrio será reordenada. Quase todos são “filmes-cabeça”, abertos, sem trama, sem personagens definidos e sem lugar algum a que se deseja chegar. E a grande maioria, embora não todos, é muito ruim, pois combina roteiros débeis a zero de apuro técnico.
Não sou contra filmes não-narrativos, nem contra a experimentação de linguagem no cinema, mas acho que aventurar-se nessa seara requer muito mais estofo e é algo que deveria decorrer da evolução de uma trajetória que necessariamente tem que partir de um conhecimento profundo da linguagem e estrutura narrativa do cinema clássico hollywoodiano. Além disso, experimentar não significa deixar de lado o apuro técnico e o planejamento. Ao contrário até, pois me aventurando em territórios não cartografados de linguagem só posso ter algum tipo de segurança se conheço as ferramentas do meu ofício.
Essa moda não é boa para a o futuro do cinema brasileiro.
Imprimir | 12 comentáriosMitos de Hollywood, por Luis Carlos Maciel
Como a teoria do inconsciente coletivo de C. G. Jung aprimorou a psicologia hollywoodiana.
Por Luis Carlos Maciel (autor de “O Poder do Clímax”)
Dezembro/2001
O crítico de cinema da The New Yorker, Anthony Lane, cita coincidências impressionantes entre o filme Nova York Sitiada, dirigido por Edward Zwick, em 1998, com Bruce Willis e Denzel Washington, e a tragédia de 11 de setembro passado, em Nova York. Semelhanças foram notadas também entre o atentado e outras desconcertantes antecipações cinematográficas. Parece que Hollywood estava adivinhando o que ia acontecer, trazendo à tona premonições secretas do inconsciente coletivo.
Quando, nos primeiros anos 30, Carl Gustav Jung apresentou ao mundo a sua idéia de um inconsciente coletivo, era improvável que alguém pudesse ter percebido a sua utilidade para o já florescente cinema de Hollywood. Mas o desenrolar dos acontecimentos, a chamada história, haveria de torná-la evidente. Era inevitável. O inconsciente de Jung, como diz o nome, é coletivo, ou seja, está naturalmente presente nas platéias de todo o mundo. Inclui absolutamente todos os espectadores que passam pelas bilheterias. Contemos a história do começo. Jung sustenta que, por baixo do inconsciente pessoal, descoberto por Freud em cada indivíduo, há uma parte mais fundamental da psique humana que é comum a todos os homens, em todos os tempos e lugares, uma espécie de herança psicológica comum a toda humanidade. Em 1934, ele escreve que "o inconsciente contém não apenas componentes pessoais mas também impessoais, em forma de categorias, ou arquétipos". Esses arquétipos se expressam por meio de símbolos que se manifestam nos sonhos de todos nós e nos mitos de todas as tradições culturais. Esses mitos, explica Jung, revelam a própria natureza da alma, são metáforas de nossa realidade interna mais profunda e essencial. De todos eles, o mais comum, o mais conhecido, é o mito do herói. Ele surge nas mais distantes e diferentes culturas – e todas as suas versões, embora sejam diferentes nos detalhes, são estruturalmente muito semelhantes. Obedecem a uma forma, um padrão, universais. Na Grécia clássica, em tribos africanas ou de peles-vermelhas americanos, nos países nórdicos da Europa ou no Peru dos incas, os heróis míticos percorrem uma trajetória parecida.
Essa descoberta impressionou o norte-americano Joseph Campbell e, por intermédio dele, Jung chegaria mais perto de Hollywood. Ainda muito jovem, em fins dos anos 20, Campbell havia entrado em contato com a obra de Jung e passou a acompanhar sua trajetória intelectual. Ele haveria de se tornar célebre por ter dedicado toda a sua vida ao estudo das mitologias. Jung certamente o inspirou a assumir uma postura oposta à do estudo acadêmico convencional. A visão acadêmica se detém nas diferenças entre as mitologias e estuda os mitos em função dessas diferenças; Campbell, ao contrário, escolheu evidenciar as semelhanças, os denominadores comuns, que revelam uma espantosa unidade entre todos eles. Em 1949, ele publicou um livro intitulado O Herói de Mil Faces, cujas conseqüências foram consideráveis.
Nele, mostra que cada herói adquire a face de sua cultura específica, mas sua jornada é sempre a mesma. É o mesmo herói que, segundo Campbell, vive, não muitos, mas sempre o mesmo mito, um "monomito" – termo que ele declara ter tirado do Finnegans Wake, de James Joyce, sobre o qual publicara seu primeiro livro, A Skeleton Key to Finnegans Wake. Evidentemente, embora inspirada em Joyce, a idéia fundamental de O Herói de Mil Faces, o monomito, tem tudo a ver com o inconsciente coletivo de Jung. Em 1983, Campbell é convidado para assistir à estréia de Star Wars, de George Lucas. O roteiro do primeiro filme da saga – como de resto de todos os outros três já produzidos e, por certo, também dos que vierem ainda a ser feitos – é inteiramente construído segundo o monomito de Campbell. Lucas lera O Herói de Mil Faces e se tornara seu fã incondicional. As diferentes etapas da jornada do herói, segundo o livro, são fielmente obedecidas nesse e em todos os filmes da saga. Milhões de pessoas, em todo o mundo, a acompanharam com devoção; as bilheterias foram algumas das maiores da história do cinema. A grande revelação do primeiro Star Wars foi de que o monomito funciona. O inconsciente coletivo é, em suma, bom para os negócios.
A revelação teve muitas conseqüências. Outros cineastas como John Boorman, Steven Spielberg, George Miller e Francis Coppola também começaram a ser influenciados por Campbell. Na verdade, Jung e Campbell chegaram a Hollywood em boa companhia.
Imprimir | Sem comentáriosJean Charles Surpreende

Fiquei positivamente surpreso com “Jean Charles”, o filme do Henrique Goldman, que conta a história do brasileiro morto pela Scotland Yard no metrô londrino por ter sido confundido com um terrorista. Confesso inclusive que acabei assistindo ao filme por acidente. Fui para uma sessão de “Ninguém sabe o duro que dei”, mas o horário errado na programação do jornal me confrontou com as alternativas de Jean Charles, Mulher Invisível ou voltar pra casa. Arrisquei o primeiro.
Evidentemente, esperava um melodrama clássico, pintando nosso azarado compatriota como um herói latino-americano, vítima de uma polícia autoritária e despreparada: um defensor da paz, um homem bom injustamente esmagado pelo choque entre radicais islâmicos e o Império.
Não é nada disso. Jean Charles é retratado como um absoluto anti-herói, cujo principal traço é a pior das características nacionais, isto é, o jeitinho e a malandragem vistos como traço positivo de caráter. Logo na sequência de abertura, vemos o protagonista, interpretado por Selton Mello, mentindo deslavadamente para o oficial de imigração que quer negar entrada no país à sua prima, interpretada por Vanessa Giácomo, desconfiado de que ela pretende trabalhar na Inglaterra – o que de fato é obviamente sua intenção. Engambelado o agente do governo, na sequência seguinte, à saída do aeroporto, abraçado à prima e orgulhoso de sua façanha, Jean Charles ensina, sublinhando o quão ingênuos e otários são os ingleses: “Pra mentir bem, tem que mentir com detalhe.” Esse é nosso personagem: um imigrante com inteligência um pouco acima da média que a usa para subir na vida, não importando os meios e servindo-se do famoso jeitinho brasileiro: ele vende vistos de permanência que não consegue entregar, dá a volta em seu empregador e amigo e se oferece para prestar serviços diretamente aos clientes dele, entre outros expedientes pouco éticos ou simplesmente ilegais.
Deve-se ressaltar que escapamos do melodrama fácil, mas que ainda nos encontramos em seu território. O filme é corajoso ao caracterizar Jean Charles dessa maneira, mas o reverso disso tudo é a idéia – corroborada pelo desdobramento de seus expedientes, todos malogrados – de que ele, no fundo, tem bom coração, pois se arrepende dos erros, gosta de ajudar as pessoas e de promover a conciliação geral. A regeneração moral é uma das pedras angulares do melodrama.
Antes do jeitinho brasileiro como crítica de fundo do roteiro, há evidentemente também a crítica direta ao país que não consegue se colocar nos trilhos de algo que se possa chamar de desenvolvimento e que continua empurrando as pessoas para o portão de embarque dos aeroportos rumo ao trabalho no exterior.
O roteiro também ganha pontos por conseguir evitar se estruturar como uma trama conforme o cânone dos manuais de roteiro. Nada mais é que uma exposição do protagonista e de sua vida abruptamente interrompida por seu assassinato, o que sublinha outro subtexto essencial e impactante: a angústia em torno do aspecto aleatório de nossas vidas. Vemos Jean Charles em seu cotidiano banal e de repente acabou-se. São pequenos e estúpidos detalhes que se somam para culminar nos sete tiros que tiraram sua vida. Mínimas diferenças e o resultado teria sido outro.
Outro ponto forte do filme reside na escolha dos atores. Selton Mello passa, mas sua performance é obscurecida pelos coadjuvantes, sobretudo pelo excelente Luis Miranda, que surpreende, por sua formação como comediante, com uma brilhante performance dramática. De modo geral, é muito feliz a escolha de um elenco com cara de gente comum (mesmo Vanessa Giácomo passa muito bem como secretária de dentista de cidade do interior).
Em resumo, não se trata de uma obra-prima, mas o filme merece crédito pela abordagem inesperada e até corajosa. Toca de forma inteligente as emoções e não deixa de ser respeitoso com Jean Charles e sua família, levantando ainda a bola do importante debate sobre emigração no Brasil. Nota 7,5.
Imprimir | Sem comentáriosApagãolipse Now
[Escrevi o conto abaixo — Apagãolipse Now — há exatos 10 anos, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst. Volto a publicá-lo aqui porque traz comentários críticos a dois filmes concorrentes ao Oscar daquele ano: A Vida é Bela e Central do Brasil. Foi inspirado em acontecimentos reais ligados ao grande blecaute ocorrido naquele ano — 11/03/1999 — em quase todo o país.]
Ivan chegou de Campinas, por volta das dezoito horas, um tanto cansado. Não conseguia se livrar de tanta informação apocalíptica, tantas coincidências significativas, tanta sincronicidade. Ou tudo não passava de humor negro cósmico – que o fazia sentir-se à beira da loucura – ou Alguém o escolhia como um tipo de profeta moderno, um João de Pátmos paulista. Em Campinas, na Casa da Lua, passou dois memoráveis meses em companhia da poeta e escritora outsider Lia Lizt. Tudo ali parecia corroborar não apenas as idéias da estranha organização que conhecera em Brasília, mas também muitos prognósticos sobre o futuro próximo do planeta. Lia Lizt tinha certeza: vivemos uma época à beira do extraordinário e do fantástico, um prenúncio de acontecimentos surpreendentes, deslumbrantes. Os ovnis que ela vira, as manifestações de seres do astral, os sinais que vira no céu, as fitas que gravara com mensagens do além, as vozes que ouvira, suas projeções astrais, os clarividentes que conhecera, sua eterna busca poética de Deus, tudo era prova disso, pouco importando se a chamavam de louca. E a viagem que Ivan fizera a uma imensa fazenda, no extremo norte do Distrito Federal, também o deixara perplexo. Realmente se construía ali uma pequena cidade multiétnica e multicultural, sob os bigodes do governo e da mídia. E ninguém se apercebia desse insólito ululante. E tudo isto era apenas o começo: como já haviam previsto malucos como Dom Bosco e Pietro Ubaldi, ali se planejava o centro de uma nova fase para o planeta. Ana, a amiga que o apresentara àquela gente, lhe contara sem pestanejar: "eles vieram ontem, antes de você chegar. Eram dez naves de quatro diferentes planetas. Vão construir suas embaixadas bem aqui." Ivan não sabia o que pensar. Ana – uma respeitada neurologista – não era nenhuma louca, nenhuma pódi-crê, muito menos aquelas outras cento e cinqüenta pessoas, entre estrangeiros e brasileiros. Ivan conversara, num inglês de Tarzã, com um engenheiro eletrônico japonês que lhe explicou como os extraterrestres vinham lhe ensinando uma tecnologia ainda desconhecida na Terra. "Para produzir energia limpa", dissera ele. Mas o mais incrível é que tudo aquilo era tão natural para aquelas pessoas, que o assunto mais corrente entre todos não eram os ETs, ou a pretensa Nova Era, mas as duas onças que vinham atacando o gado da região. Era surpreendente ainda existirem onças no centro-oeste. Teilhard de Chardin talvez tivesse razão: só o fantástico tem condições de ser verdadeiro.
Em sua casa, na grande São Paulo, Ivan tentava costurar as informações. Um certo Raël, um judeu francês, tentava convencer o Primeiro Ministro de Israel a ceder um terreno para a construção de uma embaixada para os Elohim, aqueles que vêm do céu. Claro, os dois últimos ministros não lhe fizeram caso. Raël escreveu: "não há um povo escolhido. Escolhidos são aqueles que escolhem aceitá-los. Se não for em Israel, será noutro lugar. Eles, os Elohim, oferecem tal oportunidade ao povo judeu apenas por uma questão histórica. Nós os recebemos no passado." Coincidência? Pela Internet, qualquer um pode conhecer tal carta. Mas não há nada sobre a embaixada que está sendo construída em Brasília. Ivan ainda se lembrava quando o japonês lhe falou sobre Karran, o líder ET, e de como há um certo Lord por trás de tudo. Ivan brincou citando Darth Vader, mas o japonês lhe contestou: "não, ele não é material como os outros, como o Karran, ou como nós. É um ser de luz. Esteve entre nós como Jesus de Nazaré…"
Ivan acendeu um beque e ficou pensando no outdoor negro que vira na Marginal Tietê, assim que chegara de Brasília: "Jesus está chegando!", dizia. Loucura? Fanatismo? Ilusão? Ana lhe dissera que nosso mundo é um planeta descarrilhado, mas que está prestes a reingressar na Família Cósmica. "Leia o Livro de Urântia", ela dissera. "Foi dele que o Benítez tirou praticamente todas as informações para escrever os vários Operação Cavalo de Tróia. O tal livro tá todinho na Internet, dizem que é uma revelação dos seres astrais e mentais sobre toda a verdade do Cosmos", acrescentou.
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