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Montagem versus Encenação
Texto publicado no Jornal Opção.
Desde Sergei Einsenstein, tornou-se lugar comum dizer que o coração do cinema está na montagem. Contar uma história ou transmitir um raciocínio organizados através de uma sequência descontínua de fragmentos temporais seria a essência da linguagem da sétima arte.
O grande montador Walter Murch (Apocalypse Now, O Paciente Inglês, etc.) reforçou essa idéia, propondo a hipótese, em seu seminal “Num Piscar de Olhos” (Jorge Zahar Editores), de que a montagem cinematográfica emula a maneira pela qual nosso cérebro capta a realidade – descartando fatias menos importantes dos estímulos que chegam e se concentrando nos elementos fundamentais. Para Murch, o piscar dos olhos seria o equivalente, na vida real, do corte no cinema.
O professor David Bordwell, entretanto, um dos mais respeitados teóricos contemporâneos do cinema, contesta tais idéias. Para ele, o que ocorre é que o cinema se tornou nas últimas décadas crescentemente uma arte da montagem, em detrimento das possibilidades igualmente importantes da encenação ou mise-en-scène.
Por encenação, entenda-se o conjunto dos elementos cênicos que, articulados, ajudam a contar uma história e transmitir emoções e idéias: luz, cenografia, figurinos, a posição e movimentação dos atores.
Montagem e encenação se complementam, mas, num certo nível, se opõem. Dar preferência à encenação significa, grande parte das vezes, privilegiar planos-sequência, isto é, aqueles sem cortes e/ou planos fixos, onde a profundidade de campo e a movimentação dos atores, auxiliadas por uma disposição engenhosa de elementos de cenografia, têm mais relevância para contar a história do que os cortes entre vários tipos de planos.
A maioria dos diretores de hoje – e mais ainda em Hollywood – abandonou quase por completo os recursos da mise-en-scène. Todos operam utilizando um estilo muito parecido – praticamente uma fórmula – essencialmente calcado numa montagem cada vez mais acelerada. A quantidade de cortes nos filmes ajuda a demonstrar essa afirmação. Segundo Bordwell, “do começo do cinema sonoro até a década de 1960, a maioria dos filmes de Hollywood continha entre 300 e 700 planos, com uma duração média dos planos variando entre oito e 11 segundos.” Essa duração média cai para dois a oito segundos na década de 1990, com muitos filmes chegando a terem mais de dois mil planos. Embora os filmes de ação evidentemente puxem esses números, com suas montagens frenéticas, comédias românticas não ficam muito atrás, ele aponta, com filmes como Shakespeare Apaixonado (1998), Noiva em Fuga (1999) e Jerry Maguire (1996) tendo uma duração média de planos entre quatro e seis segundos.
Em oposição a essa maneira de contar histórias com imagens, para quem gosta de cinema, é fundamental saber que há um vasto conjunto de cineastas que relegam a montagem a segundo plano em seu estilo de dispor da linguagem cinematográfica. Os japoneses Kenji Mizoguchi e Yazujiro Ozu, o americano Orson Welles, o grego Theo Angelopoulos e o taiwanês Hou Hsiao-Sien, entre outros, são todos mestres no uso da profundidade de campo e do plano-sequência.
Em seu único livro publicado em português, “Figuras Traçadas na Luz” (Editora Papirus), David Bordwell analisa as estratégias de mise-en-scène de alguns deles. Como exemplo lapidar da força e do potencial da encenação, ele cita uma cena de “Paisagem na Neblina”, de Angelopoulos, onde a protagonista Voula, uma menina de 12 anos, é estuprada por um caminhoneiro. Na paisagem desolada, cinzenta e chuvosa de uma estrada, o caminhão para no acostamento. O caminhoneiro desce puxando a menina e entra com ela na carroceria. A câmera fica do lado de fora – nossa visão, toldada pela lona que a encerra – e, por longos minutos sem cortes, assistimos ao caminhão sem ver o que acontece lá dentro, mas sabendo-o bem. A posição da câmera, com o caminhão dominando o quadro e a estrada ao fundo magnetizam nosso olhar e tornam todo o acontecimento ainda mais chocante por sua “sinistra inevitabilidade”.
Conhecer esses mestres da encenação abre todo um novo horizonte em relação ao potencial da linguagem cinematográfica.
Imprimir | 1 comentárioI’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!
Hoje, faleceu o diretor Sidney Lumet (1924–2011).
Em seu filme “Network“, o personagem de Peter Finch, cansado da impassibilidade das pessoas diante de tanta violência, dos problemas econômicos, ambientais e sociais, vai à TV e conclama todos a que gritem pelas janelas: “ESTOU PUTO PRA CARALHO E NÃO VOU MAIS SUPORTAR ISSO!!!” (texto completo abaixo do vídeo).
Imprimir | Sem comentáriosHoward Beale: I don’t have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It’s a depression. Everybody’s out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel’s worth, banks are going bust, shopkeepers keep a gun under the counter. Punks are running wild in the street and there’s nobody anywhere who seems to know what to do, and there’s no end to it. We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat, and we sit watching our TV’s while some local newscaster tells us that today we had fifteen homicides and sixty-three violent crimes, as if that’s the way it’s supposed to be. We know things are bad – worse than bad. They’re crazy. It’s like everything everywhere is going crazy, so we don’t go out anymore. We sit in the house, and slowly the world we are living in is getting smaller, and all we say is, ‘Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials and I won’t say anything. Just leave us alone.’ Well, I’m not gonna leave you alone. I want you to get mad! I don’t want you to protest. I don’t want you to riot – I don’t want you to write to your congressman because I wouldn’t know what to tell you to write. I don’t know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street. All I know is that first you’ve got to get mad. You’ve got to say, ‘I’m a HUMAN BEING, God damn it! My life has VALUE!’ So I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window. Open it, and stick your head out, and yell, ‘I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!’ I want you to get up right now, sit up, go to your windows, open them and stick your head out and yell – ‘I’m as mad as hell and I’m not going to take this anymore!’ Things have got to change. But first, you’ve gotta get mad!… You’ve got to say, ‘I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!’ Then we’ll figure out what to do about the depression and the inflation and the oil crisis. But first get up out of your chairs, open the window, stick your head out, and yell, and say it: “I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!”
Do Lado de Lá do Rio da Prata
Artigo Publicado originalmente no Jornal Opção.
Há sempre muita briga quando se compara o cinema argentino ao cinema brasileiro – gente argumentando por uma suposta superioridade do cinema ao sul do Rio da Prata, gente se batendo pela solidez de nossa produção, que em nada ficaria a dever à deles.
A despeito da polêmica, é evidente que a Argentina possui uma produção farta e diversa de altíssima qualidade no campo da ficção. Curiosamente, sua cinematografia documental ainda permanece em larga medida desconhecida no Brasil.
Eles por lá têm também suas próprias polêmicas, e o incensado Juan José Campanella, diretor do oscarizado “O Segredo dos Seus Olhos”, é um dos principais focos desses atritos; premiado e bem sucedido comercialmente, polemiza com muitos de seus pares ao defender a necessidade de um olhar mais comercial sobre o cinema, atacando a grande parcela da produção argentina que, como no Brasil, se financia com recursos públicos e gera pouco interesse nas platéias.
Passando ao largo da briga, Campanella é roteirista e diretor de melodramas sensíveis e inteligentes – característica que, a meu ver, une muitos dos melhores diretores do cinema recente argentino.
Além de Campanella, nomes como Carlos Sorín, Pablo Trapero, Daniel Burman, Lucía Puenzo, Marcelo Piñeyro, Adolfo Aristarain e Eduardo Mignogna, entre outros, guardadas suas peculiaridades e estilos em alguns casos radicalmente diferentes, têm em comum filmes de estrutura melodramática, que fogem porém do moralismo, do maniqueísmo e das emoções fáceis. Todos eles em algum momento dirigiram dramas humanos quase sempre singelos baseados em personagens construídos com complexidade, não raro retratando pessoas comuns e fatos cotidianos; filmes quase sempre calcados em grandes atuações que envolvem temas recorrentes como a família, a velhice e o desemprego, e outros delicados, como hermafroditismo ou a máfia de seguros no sistema de saúde.
Entre os melodramas de Campanella se destacam sobretudo o premiado “O Segredo dos Seus Olhos” e o também conhecido “O Filho da Noiva”. Apesar de considerá-los grandes filmes, é Carlos Sorin, entretanto, meu cineasta argentino favorito. Quase todos os seus filmes têm como cenário as paisagens monumentais da Patagônia. Nos quadros amplos e nos planos longos e silenciosos, aparecem anti-heróis simples e ingênuos – grande parte das vezes representados por não-atores – como o Juan Villegas de “O Cachorro” (veja o trailer acima) ou a Maria Flores e o Don Justo de “Histórias Mínimas”.
Pablo Trapero é um dos cineastas jovens argentinos mais conhecidos e premiados. “Abutres”, seu trabalho mais recente, foi parte da seleção oficial de Cannes em 2010. É um excelente thriller com um pano de fundo de crítica social, mas seu primeiro filme – “Mundo Grua” – segue sendo sua melhor realização. Rodado em preto e branco, o filme conta a história de Rulo, um desempregado que tenta conseguir trabalho como operador de gruas numa obra.
Para não ficarmos só no melodrama, cabe encerrar com a também conhecida Lucrecia Martel, cujo longa de estréia “O Pântano” é um retrato perturbador de uma família provinciana no nordeste da Argentina. Distantes da estrutura de um cinema clássico narrativo, a seus filmes não interessa a causalidade dos fatos, mas a própria tessitura da vida, onde certas ações não levam a nada, onde o acaso tem papel predominante e onde as coisas não fazem mesmo muito sentido. Seus outros dois longas: “A Menina Santa” e a “Mulher sem Cabeça” trilham caminhos semelhantes e são também muito perturbadores.
Imprimir | 3 comentáriosProdução Indepentende de Verdade
Julie, Agosto, Setembro – Teaser from Pedro Novaes on Vimeo.
Em todos os lugares, no Brasil e fora, onde houve uma renovação importante da produção de cinema, com filmes que chamaram a atenção da mídia e do público, quase sempre existia uma escola de cinema que, de alguma forma, propiciava o ambiente para que grupos de aspirantes a cineastas e cineastas já experientes interagissem. Dessa mistura, alimentada por debates acadêmicos, pela discussão de filmes e por aprendizado técnico, é que começaram a aparecer filmes novos e de frescor inusitado em lugares como Recife, Porto Alegre e Buenos Aires.
Não sabemos se algo que chame a atenção do país em termos de cinema surgirá aqui em Goiás em algum momento no futuro próximo. Mas o fato é que a mera existência de um curso superior de graduação em Audiovisual, na Universidade Estadual de Goiás, com todos os seus problemas de estrutura, já começa a mudar a cara do que se faz por aqui – sem demérito dos demais realizadores que, de várias maneiras, têm interagido com os alunos daquela instituição e contribuído para o caldo que devagar se forma ali.
A primeira turma se graduou no ano passado e vários talentos já começam a despontar. Alguns deles se juntaram para a realização do curta “Julie, Agosto, Setembro”, que tive o prazer de editar e que será lançado no dia 14 de março, às 20 horas, no Cine Cultura.
O filme foi produzido absolutamente sem recursos, a partir da colaboração voluntária de toda a equipe e dos esforços da Panaceia Filmes e da Tá na Lata Filmes.
Com roteiro e direção de Jarleo Barbosa, direção de arte de Benedito Ferreira e fotografado por Emerson Maia com uma Canon 5D, o curta, com cerca de oito minutos de duração, conta a história da adaptação de uma jovem suíça a Goiânia.
O resultado ficou muito bom.
JULIE, AGOSTO, SETEMBRO
Roteiro e Direção: Jarleo Barbosa
Direção de Arte: Benedito Ferreira
Direção de Fotografia: Emerson Maia
Produção: Larissa Fernandes
Edição: Pedro Novaes
Edição de Som: Thais Oliveira
Trilha Sonora: Victor L. Pontes
Música Tema: Folk Heart
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Rio (2011) – trailer
Uma animação tendo o Rio de Janeiro como cenário será o máximo!
Rio (2011), direção de Carlos Saldanha, no IMDB.
Imprimir | Sem comentáriosMelhores de 2010
Teve muito filme bom, vai dizer? Não consegui ficar só em 10.

1) O Segredo dos Seus Olhos
Não precisa dizer muito. É o melodrama no que tem de melhor, roteirizado e conduzido com maestria por um cineasta que sabe como ninguém onde pisa nesse território minado. Mais que saber estruturar um excelente melodrama, Campanella consegue tecer uma teia brilhante unindo uma história de amor, um crime e, como pano de fundo, a história da Argentina.
2) A Fita Branca
Sombrio e seco, o filme explora, nas palavras do próprio diretor, as condições sociais e históricas de surgimento do nazismo, falando de episódios de violência numa pequena aldeia alemã às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Como tal, o filme pulsa violência reprimida, sem que exiba uma única gota de sangue. A magistral fotografia em preto e branco e tudo o que não é dito, mostrado e explicado, constroem uma atmosfera sufocante merecedora da Palma de Ouro em Cannes.
3) Um Homem Sério
Os irmãos Coen todos os anos compõem qualquer lista dos melhores do ano. Dispensam comentários. Um Homem Sério é um cruel e irônico retrato de um anti-heroi.
4) Além da Estrada
O filme brasileiro-uruguaio foi talvez a mais grata surpresa do ano. Sensível, delicado, simples e bem realizado, é um road movie que respira liberdade: na idéia singela – um jovem argentino dá carona a uma garota belga viajando de carro pelo Uruguai e os dois, enquanto desenvolvem uma relação, vão conhecendo personagens -, no roteiro, que não precisa de reviravoltas a cada cinco minutos, com bem observou o Inácio Araújo, nas excelentes interpretações dos protagonistas, na bela fotografia, nas surpreendentes e intensas entradas de não-atores – personagens reais que interagem com os personagens da ficção, dando um impressionante ar super-realista a certas sequências, e no estilo de cinema-direto, sem frescuras, dos enquadramentos e da montagem. Um puta filme.
5) Se nada mais der certo
Belmonte se dá bem e surpreende trilhando um território perigoso: o dos personagens urbanos fodidos. O cinema nacional já derrapou e capotou demais nessa arena super-explorada, cheia de clichês, de visceras expostas e sociologia barata. Com atuações geniais de Cauã Reymond, João Miguel e Milhem Cortaz, entre outros, o filme toca por construir personagens complexos e por se esquivar de fazer sociologia, sem deixar entretanto de dar recado sobre o lugar social dos personagens – sutil, complexo e contraditório -, tratando o espectador como ser inteligente. Nem a forte escorregada na conclusão, com um final bobo babalorixaico-místico, diminui esse grande filme.
6) Os Famosos e os Duendes da Morte
Junto com “As Melhores coisas do Mundo”, o filme de Esmir Filho é o maior sopro de ar fresco recente do cinema nacional, exemplo de que é possível fazer poesia sem ser hermético e cabeça, e de que é possível contar histórias sem script doctors. Ecos de Angelopoulos em algumas cenas. Lindo.
7) Toy Story 3
A Pixar é hoje o fino do fino da maestria hollywodiana para contar histórias. Que filme inteligente, engraçado e sensível. Que refinamento ser capaz de fazer um roteiro que agrada e faz rolar de rir pessoas de qualquer idade.
8 ) As Melhores Coisas do Mundo
Foi um grande ano para o cinema brasileiro. Também pelas bilheterias, mas sobretudo por um conjunto de filmes sensíveis, que revelam o grande talento de alguns roteiristas e diretores. “As Melhores Coisas do Mundo” demonstra que é possível fazer filmes inteligentes para um grande público e fazer filmes interessantes sobre pessoas que não moram na favela, nem estão em crise existencial.
9) A Prova de Morte
Tarantino at his best.
10) Abutres
Mais uma vez, a sensibilidade de um realizador argentino consegue entrelaçar, sem forçar a barra, histórias de indivíduos, construindo personagens complexos, a questões sociais importantes, sem fazer panfleto, coisa de que o cinema brasileiro ainda tem dificuldade. Mais uma grande interpretação de Ricardo Darin. O cara não para.
11) Fôlego
Kim Ki Duk à altura do Kim Ki Duk de “Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera”. A mesma câmera fazendo as paisagens falarem. Os mesmo silêncios carregados. Genial.
12) Vício Frenético
Nicolas Cage simplesmente incrível no papel principal. Werner Herzog de volta a toda.
13) Viajo porque Preciso Volto porque te Amo
Karim Ainouz. Não precisa dizer mais nada. Um puta exercício, que ganha tamanho em proporção à sua despretensiosidade. Muito bonito. We love you, Karim.
Tensão Pré-Menstrual (TPM) – uma história de horror
Boas imagens a deste curta-metragem dos mais sacanas… (Com muita razão, os norte-americanos chamam a TPM de PMS – Síndrome Pré-Menstrual.)
Imprimir | Sem comentáriosDavid Fincher filma… o Facebook
O novo filme do David Fincher — The Social Network — trata da criação do Facebook e das intrigas em meio às quais Mark Zuckerberg se tornou um dos empreendedores mais bem sucedidos da web. Veja o teaser…
(Via @abcaldas.)
Imprimir | 2 comentáriosNo set de “2001: Uma Odisséia no Espaço”
Stanley Kubrick orienta seus atores no “set da centrífuga”:
A parte exterior da centrífuga:

Agora tente incluir esse set no orçamento de um filme brasileiro com financiamento público…
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