Arquivo da categoria 'Teorias & Conceitos'
O Rolex e o Celular
Digamos, por motivos de pura ironia, que seu nome era Christian, uma vez que se mostrou tão irritado — em outra conversa velha de um ano, que agora não vem ao caso — ao tratar das “desprezíveis” raízes cristãs (the christian roots) do Ocidente. Christian, um diretor de cinema brasileiro, basicamente de curtas-metragens, me foi apresentando como sendo curador de um relevante festival de cinema do Rio de Janeiro. “Não se preocupe”, me disse, “pelo que ouvi falar a respeito do seu filme, com certeza irei gostar muito”. Eu não estava preocupado, mas quis saber o que ele ouvira. “Ué, bróder, me disseram que o filme era uma porrada no estômago. Fiquei curioso. Se eu curtir, ele poderá ser selecionado pro meu festival.” Estávamos na festa de encerramento de mais uma edição da Goiânia Mostra Curtas, taças de vinho à mão, enquanto, ao nosso lado, uma fila se formava para o bufê que já começara a ser servido. Era noite e o pátio da Secretaria de Cultura estava abarrotado de cineastas, atores, políticos, empresários e culturetes em geral, todos muito satisfeitos em participar de um evento do gênero. Era como se uma atmosfera cosmopolitana tivesse subitamente descido sobre a cidade. Nada como testemunhar que o cinema goiano, em particular, e o brasileiro, em geral, parecia ter finalmente tomado impulso — muito embora não se soubesse exatamente em qual direção…
O rega-bofes patrocinado involuntariamente pelo contribuinte seguia seu curso, enquanto eu, Christian e o também cineasta João Novaes prosseguíamos rindo e conversando sobre temas diversos. A certa altura, lembrando-me da polêmica recente a respeito do sucesso do longa “Tropa de Elite”, decidi indagar:
“E aí, Christian, você gostou do Tropa de Elite? Seria interessante saber de um cineasta carioca se o filme afinal é fiel ou não à realidade.”
O cara mudou de cor instantaneamente, ficou branco, em seguida vermelho, então franziu o cenho e começou a disparar mil petardos contra o filme. Falava na velocidade de uma metralhadora, uma dessas que os traficantes costumam usar nos morros. Mais baixo que eu, Christian às vezes me olhava por cima dos óculos, o que tornava suas sobrancelhas mais ameaçadoramente expressivas. Dizia que o “Tropa” era o filme mais mentiroso e ridículo de todos os tempos, uma enganação com DNA hollywoodiano à qual apenas a massa estúpida poderia dar algum crédito.
“Acho que então faço parte da ‘massa estúpida’”, comentei, “porque achei o filme excelente.” Leia mais
Imprimir | 1 comentárioDo Uso da Voz Over em Cinema
O Ronaldo Britto Roque, amigo e colaborador do Garganta de Fogo, blog irmão deste aqui, tem um ponto de vista inflexível a respeito do uso do off no cinema. Considera ele que “filme não pode ter narração em off. A cena tem de sintetizar a narrativa dramaticamente. Narrativa em off é coisa para rádio.” Esta discussão evidentemente é antiga, mas nunca perde sua atualidade, pois remete à reflexão sobre a própria natureza do cinema, seus meios e seu propósito.
Embora eu concorde, de forma geral, com a observação do Ronaldo, existem muitas exceções a esta regra. Há grandes filmes que fazem uso do off, ou do voice over, para ser mais tecnicamente preciso.O “voice over” acontece quando um personagem ou narrador que não está em cena fala, enquanto o “off screen” - de onde vem o termo “off” - refere-se a um personagem em cena, mas fora da tela no momento - a mãe que grita lá do quarto ou o diálogo de um personagem, enquanto o editor opta por mostrar a cara do seu interlocutor, por exemplo. Portanto, a rigor, estamos discutindo o voice over, e não o off, embora seja corrente o uso deste termo para esta ou aquela situação.
Para citar casos de filmes memoráveis onde o voice over aparece e é usado de forma criativa certamente devemos começar com aquele que é considerado o maior de todos, o “Cidadão Kane”. Em tempos mais recentes, Charlie Kaufman, um dos roteiristas contemporâneos mais inovadores, também faz uso constante do voice over em filmes como “Adaptação” e “O Senhor das Armas”. Além deles, cabe ainda citar os geniais “Dogville” e “Manderlay”, de Lars Von Trier. Voltando a Hollywood, achei interessantes também os voice overs de “Pecados Íntimos”, oscarizado este ano. Neste filme, a narração, um pouco na linha das experiências de Lars Von Trier, assume um tom irônico e meio farsesco, compondo um contraponto com as imagens que faz o filme crescer.
Os documentários evidentemente são outro departamento. E neste terreno não há regras específicas. Felizmente, há uma onda recente de documentários em estilo clássico - com muita narração, entrevistas e imagens de cobertura - de alto quilate, no Brasil. E os festivais a estão reconhecendo. Prova disso é a premiação de “Condor”, de Roberto Mader, em Gramado e agora no Festival do Rio. O doc trata da operação clandestina conjunta entre os regimes militares sul americanos para troca de informações e captura de militantes de esquerda. Eu o assisti em Gramado e gostei muito.
A onda atual de experimentalismo em documentários, ainda que benvinda, carrega certo preconceito com o modelo clássico - e portanto contra a narração em voz over -, além de gerar muita porcaria. É preciso saber separar o joio do trigo.
Por outro lado, pode-se ser muito experimental também neste campo E fazer uso do voice over - que o diga Glauber, com seu revolucionário “Di”. Tentando concluir, está aí um exemplo maior das lições e regras que podemos tirar desta discussão. O voice over tem que servir para expandir o significado das imagens, e não para delimitá-lo, reduzi-lo ou reafirmá-lo. É o que acontece nos filmes de Lars Von Trier ou no documentário de Glauber. Em “Di”, imagens, narração e música se contrapõem, contradizem e se somam, sempre expandindo o significado do filme.
Num próximo post, quero comentar o filme espanhol “A Vida Secreta das Palavras”, a que assisti esta semana. Primeiro porque neste caso o Ronaldo tem razão. Há uns offzinhos muito irritantes que deviam ser extirpados, mas, mais importante, porque é um filme que, para sua veracidade, depende integralmente do local escolhido para ambientá-lo. Se não se passasse numa plataforma de petróleo, seria um filme muito ruim. Mas é bastante bom.
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