sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Entrevendo a Cegueira
Quem ainda não leu, não sabe o que está perdendo. O Diário de Blindness, blog do Fernando Meirelles sobre a realização de seu filme é simplesmente do caralho. Como se não bastasse ser um tremendo diretor, o cara escreve muito muito muito bem. Eu tinha passado algumas semanas sem acessá-lo e ontem tive quase uma hora de diversão e aprendizado lendo tudo o que ficou pra trás.
Além disso, para quem, como eu, tem o Ensaio sobre a Cegueira entre seus livros mais queridos, é um enorme prazer acompanhar com expectativa crescente o making of do filme. Uma grande sacada do Meirelles e da O2.
Imprimir | Sem Comentáriosquarta-feira, 2 de janeiro de 2008
A Culpa é do Diretor

Para mim parece muito claro que a maior deficiência do cinema nacional está na preparação e direção de atores. E más performances são 95% culpa de maus diretores e apenas 5% culpa dos atores. Bons diretores, dadas certas condições, extraem papéis memoráveis de pessoas que nunca atuaram (vide, entre outros, os filmes do argentino Carlos Sorín, como “O Cachorro” e “Histórias Mínimas”, além da exceção nacional a confirmar a regra: “Cidade de Deus”).
A afirmação feita acima é tão mais válida quanto menor o orçamento do filme e inquestionável quando falamos de curta-metragens brasileiros. Felizmente, na produção de longas, esta deficiência tem sido minorada a passos largos com a valorização de profissionais de preparação de elenco. Pessoas como Sérgio Penna, Fátima Toledo e Chris Duvenport têm sido fundamentais na produção de atuações memoráveis em filmes como “Bicho de Sete Cabeças”, “Tropa de Elite” e no próprio “Cidade de Deus”. Até o Manual da Vida Brasileira dia desses dedicou matéria ao tema.
Fato é que, se as produções de baixo orçamento ainda penam para ganhar pleno domínio de técnicas básicas como fotografia, o que dizer da direção de atores, campo em larga medida ainda tido como esotérico num meio bastante dominado por diretores de origem mais técnica.
A maioria de nós jovens diretores ainda crê que basta dar uma ordem para que o ator produza uma performance. E, se a coisa não funciona, culpa do ator, que não nos escuta ou, pior, “que não sabe atuar pra câmera porque sua formação é de teatro”. Essa é uma bobagem que escuto com grande frequência.
É evidente que há diferenças grandes na mise-en-scene teatral e na do cinema, mas o ofício do ator continua o mesmo, isto é, se emocionar diante do público para contar uma história. A diferença entre uma arte e outra cabe ao diretor entender muito mais que ao ator.
Felizmente, há farta literatura sobre o tema, a começar pelos trabalhos seminais obrigatórios de Constantin Stanislavski.
Em língua inglesa, um dos melhores livros publicados sobre o tema é “Directing Actors”, de Judith Weston. Obrigatório. Vai para nossa “Biblioteca do Cineasta Digital”.
Estou traduzindo um dos melhores trechos do livro, em que a autora descreve, de maneira muito elucidativa, tudo aquilo que um diretor não deve fazer no trabalho com os atores. Em breve, devo postá-lo por aqui.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
De Volta à Infância
Depois do jantar, eu e a patroa fomos testar nossos recém-adquiridos conhecimentos no campo da maquiagem cênica. Pra primeira tentativa, até que não ficou ruim. O principal problema é que a base não é do tom da minha pele. Segundo, as pontas do corte têm que ficar mais agudas e menos arredondadas, e, por fim, a cor do sangue deve ser um pouco mais viva. De relance, até dá pra enganar.
A receita dos cortes e de outros efeitos de maquiagem está aqui.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Novelo de Teseu

Embora voltado para a realidade do cinema independente americano, o “Ultimate Festival Survival Guide”, escrito por Chris Gore, traz informações bastante interessantes também para o nosso mundo aqui embaixo. Entre outras coisas, ajuda a pensar uma estratégia coerente e realista para a busca de festivais adequados a seu filme e propósitos, economizando grana e maximizando as chances de sucesso. Quem já tentou, sabe que enorme labirinto é a infinita miríade de festivais aqui no Brasil e no exterior. Catorze dólares na Amazon, fora o frete.
Vai para a nossa biblioteca aí ao lado.
Imprimir | Sem Comentáriosquarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Efeitos Especiais

Nunca é demais lembrar os termos mais corretos: efeitos especiais são realizados no set - explosões, tiros, acidentes, etc. -, enquanto efeitos visuais são aqueles realizados na pós-produção, com o uso de softwares. Portanto, quase tudo o que se vê em Guerra nas Estrelas, por exemplo, são efeitos visuais, e não efeitos especiais.
Pesquisando pro curta que vamos rodar neste domingo, topei com o MSFX, um excelente site sobre efeitos especiais, com ótimas dicas sobre maquiagem, pirotecnia, animação, composição e outras coisas bem bacanas.
Vai pros links aí ao lado.
Imprimir | Sem Comentáriosdomingo, 7 de outubro de 2007
Do Uso da Voz Over em Cinema
O Ronaldo Britto Roque, amigo e colaborador do Garganta de Fogo, blog irmão deste aqui, tem um ponto de vista inflexível a respeito do uso do off no cinema. Considera ele que “filme não pode ter narração em off. A cena tem de sintetizar a narrativa dramaticamente. Narrativa em off é coisa para rádio.” Esta discussão evidentemente é antiga, mas nunca perde sua atualidade, pois remete à reflexão sobre a própria natureza do cinema, seus meios e seu propósito.
Embora eu concorde, de forma geral, com a observação do Ronaldo, existem muitas exceções a esta regra. Há grandes filmes que fazem uso do off, ou do voice over, para ser mais tecnicamente preciso.O “voice over” acontece quando um personagem ou narrador que não está em cena fala, enquanto o “off screen” - de onde vem o termo “off” - refere-se a um personagem em cena, mas fora da tela no momento - a mãe que grita lá do quarto ou o diálogo de um personagem, enquanto o editor opta por mostrar a cara do seu interlocutor, por exemplo. Portanto, a rigor, estamos discutindo o voice over, e não o off, embora seja corrente o uso deste termo para esta ou aquela situação.
Para citar casos de filmes memoráveis onde o voice over aparece e é usado de forma criativa certamente devemos começar com aquele que é considerado o maior de todos, o “Cidadão Kane”. Em tempos mais recentes, Charlie Kaufman, um dos roteiristas contemporâneos mais inovadores, também faz uso constante do voice over em filmes como “Adaptação” e “O Senhor das Armas”. Além deles, cabe ainda citar os geniais “Dogville” e “Manderlay”, de Lars Von Trier. Voltando a Hollywood, achei interessantes também os voice overs de “Pecados Íntimos”, oscarizado este ano. Neste filme, a narração, um pouco na linha das experiências de Lars Von Trier, assume um tom irônico e meio farsesco, compondo um contraponto com as imagens que faz o filme crescer.
Os documentários evidentemente são outro departamento. E neste terreno não há regras específicas. Felizmente, há uma onda recente de documentários em estilo clássico - com muita narração, entrevistas e imagens de cobertura - de alto quilate, no Brasil. E os festivais a estão reconhecendo. Prova disso é a premiação de “Condor”, de Roberto Mader, em Gramado e agora no Festival do Rio. O doc trata da operação clandestina conjunta entre os regimes militares sul americanos para troca de informações e captura de militantes de esquerda. Eu o assisti em Gramado e gostei muito.
A onda atual de experimentalismo em documentários, ainda que benvinda, carrega certo preconceito com o modelo clássico - e portanto contra a narração em voz over -, além de gerar muita porcaria. É preciso saber separar o joio do trigo.
Por outro lado, pode-se ser muito experimental também neste campo E fazer uso do voice over - que o diga Glauber, com seu revolucionário “Di”. Tentando concluir, está aí um exemplo maior das lições e regras que podemos tirar desta discussão. O voice over tem que servir para expandir o significado das imagens, e não para delimitá-lo, reduzi-lo ou reafirmá-lo. É o que acontece nos filmes de Lars Von Trier ou no documentário de Glauber. Em “Di”, imagens, narração e música se contrapõem, contradizem e se somam, sempre expandindo o significado do filme.
Num próximo post, quero comentar o filme espanhol “A Vida Secreta das Palavras”, a que assisti esta semana. Primeiro porque neste caso o Ronaldo tem razão. Há uns offzinhos muito irritantes que deviam ser extirpados, mas, mais importante, porque é um filme que, para sua veracidade, depende integralmente do local escolhido para ambientá-lo. Se não se passasse numa plataforma de petróleo, seria um filme muito ruim. Mas é bastante bom.
Imprimir | Sem Comentáriossábado, 6 de outubro de 2007
Cegueira
Vale à pena checar o blog do “Blindness”, o filme de Fernando Meirelles baseado no romance de José Saramago, que acaba de entrar na fase final de filmagem, trocando as ruas de Montevidéu pelas de São Paulo. O Meirelles escreve muito bem e deixa entrever a ossatura que constitui um grande diretor.
No post anterior em seu blog, falava, por exemplo, da opção por abolir qualquer preocupação com a continuidade espacial das tomadas, pois na cegueira a espacialidade ganha uma conotação absolutamente diferente. Ele sentiu isso participando dos laboratórios conduzidos com a equipe pelo preparador de atores Chris Duvenport.
Neste post novo, ele externa sua última paranóia: a de que há pouco cocô nas cenas, quando uma das imagens marcantes do romance de Saramago, para quem leu, é seguramente a descrição da prolificidade de excrementos no hospício e nas ruas da cidade barbarizadas pela humanidade cega.
“Falta cocô? Será que me acovardei e estou fazendo um filme limpinho? Será que a situação que deveria ser insustentável vai perder o peso por causa da minha calhordice asséptica?”, preocupa-se Meirelles. Diante disso, resolveu rodar algumas tomadas de detalhes de excrementos e de corredores muito emporcalhados.
O cuidado e o esmero que estas dúvidas e o questionamento cotidiano ensejam parecem um indicador de que veremos um grande filme.
Imprimir | Sem Comentáriossegunda-feira, 9 de julho de 2007
From Goyaz to Glauber
No ano passado, o Yuri Vieira e eu, roteirizamos e dirigimos a realização do making of do VIII FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental), cuja nona edição ocorreu há poucas semanas na cidade de Goiás. O trabalho sem pretensão, executado pelos participantes das oficinas de fotografia e edição coordenadas respectivamente por Dib Lutfi e João Paulo carvalho, acabou ficando muito legal e foi bastante elogiado, entre outras pessoas, por Ismail Xavier. O mérito é todo do grande inspirador, o guru Glauber Rocha.
Imprimir | Sem Comentáriosdomingo, 8 de julho de 2007
Mini 35 P + S
Antes de mais nada, as escusas pela falta de manutenção do blog. Está difícil tirar tempo pra escrever, mas esperamos, em breve, sobretudo convidando mais colaboradores, que ele seja atualizado com maior regularidade.
O Gustavo Seabra, leitor do blog, perguntou num comentário a respeito de adaptadores de lentes de câmeras de cinema para câmeras de vídeo. É uma técnica interessante, que já vi em ação, e que realmente colabora muito para dar um look de cinema às imagens gravadas digitalmente, sobretudo por reduzir a profundidade de campo infinita do vídeo derivada principalmente do diminuto tamanho do CCD (1/2 polegada ou cerca de 12,5 mm, os maiores), em comparação com negativo, que tem 35 mm.
Há uma relação direta e fixa entre o tamanho do plano de imageamento (o filme ou o CCD) e a profundidade de campo que se obtém. Na verdade, há dois fatores interrelacionados que determinam esta profundidade: o tamanho do plano de imageamento e a distância focal da lente usada. São estes dois elementos que, por sua vez, determinam o ângulo de visão e , por esta via, a profundidade de campo.
Sintetizando, um plano de imageamento maior permite profundidades de campo menores sob uma mesma abertura de diafragma e distância focal igual. Daí resulta, em grande parte, o efeito dramático e estético superior das imagens em filme.
Este tipo de adaptador mencionado pelo Gustavo é produzido pela P + S Technik (não sei se há outros fabricantes) e presta um duplo serviço ao cineasta digital: 1) permite o uso de diferentes lentes de qualidade superior e distâncias focais variáveis em câmeras digitais que, via de regra, possuem lentes fixas e de distância focal limitada; 2) aumentam o plano de imageamento, produzindo uma profundidade de campo cinemática.
O adaptador, chamado “Mini 35″, é encaixado na frente da lente da câmera e, diante dele, encaixa-se a lente profissional desejada. A imagem captada pela lente profissional é projetada sobre uma placa de acrílico ou material semelhante, que passa a ser o plano de imageamento primário, de onde é captada pela lente fixa da câmera digital. O resultado é uma nova relação de profundidade de campo e imagens captadas por lentes de qualidade em geral muito superior.
O efeito é realmente sensacional. O custo não é, entretanto, dos mais acessíveis, mas evidentemente fica muito menor do que o de uma câmera 35 mm. O resultado vale à pena, caso se disponha de um pouco mais de recursos para o trabalho. No Brasil, sei que a Cine Locações de Brasília possui o equipamento e o utiliza em geral acoplado a uma HVX 200.
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Mandra manda bem
A Mandra Filmes é uma premiada empresa de Goiânia especializada em animação 2D e 3D, efeitos visuais, edição, montagem, desenho de som e trilha musical. Oferece serviços nas áreas de cinema, vídeo, comerciais para televisão e multimídias, além de tocar seus próprios projetos na área de animação.
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