Sertão Filmes

Submarino.com.br

Vanguarda sem Retaguarda

Foto-Glauber-Blog

Walter Murch, o grande montador de cinema, profissional oscarizado por trás de filmes como “Apocalipse Now” e “O Paciente Inglês” não é um saudosista da moviola. Ele fez com tranquilidade a transição para o digital e a edição não-linear, mas é lúcido, reconhecendo que há ganhos e perdas nas mudanças tecnológicas. Entre estas, ressalta que a tecnologia digital, pelo seu custo infinitamente menor e pela possibilidade de desfazer erros, fomenta certo desleixo no processo de trabalho e sobretudo falta de cuidado com o planejamento. Montar em película, com o alto custo de cópias adicionais em caso de erros para remontar uma sequência, sempre obrigava a equipe a maior organização e a pensar muitas vezes antes de lançar mão da tesoura.

O mesmo vale, sem dúvida, para o set de filmagem. Rodar em película obriga a muito planejamento e a ensaios exaustivos com os atores, pois na hora em que se dispara a câmera, tudo tem que funcionar, tendo em vista o preço do negativo e também, claro, o custo da equipe e equipamentos mobilizados.

O custo comparativamente menor para a captação de imagens digitais – mídia regravável, equipes menores, câmeras mais baratas – e a ilusória facilidade de manuseio das câmeras digitais têm induzido, sobretudo os jovens realizadores, a uma cultura de desleixo com o planejamento dos filmes. Captar imagens de fato é fácil. Difícil é captar imagens de qualidade, com alto valor agregado e transformá-las num filme de qualidade. Fato é que o famoso mote glauberiano do Cinema Novo, de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, perdeu sua validade. Na verdade, ele nunca teve validade para além de uma idéia-força ou lance de marketing, pois mesmo Glauber e os outros cinema-novistas conheciam profundamente seu ofício e planejavam seus filmes com cuidado antes de disparar a câmera.

A essa ilusória facilidade do digital, que sugere podermos abrir mão do planejamento, une-se, a meu ver, de maneira deletéria, a moda do experimentalismo. Soma de um equivocado pensamento esquerdista, que vê nos filmes narrativos a dominação cultural de um formato imposto pelo cinema americano, à enganosa idéia de que a criação seria produto de um mero ato de inspiração, sem qualquer participação da razão e de técnicas, esta visão tem levado a uma preocupante predominância de filmes não-narrativos entre os curtas produzidos no Brasil e a filmes com pouco ou nenhum apuro técnico, pois no final o que importaria seria apenas “a idéia na cabeça”. Com todas as palavras, o experimentalismo tem sido usado como desculpa para produzir filmes ruins e colocar a culpa na falta de cultura e sensibilidade do espectador pelas diminutas platéias.

Pior ainda, esta moda do experimentalismo, típica de uma visão pós-moderna, em que tudo se justifica em si mesmo e auto-determina seu valor, tem levado a uma formação muito deficiente de roteiristas no país. Escrever roteiros é 10% de inspiração e 90% suor e técnica, técnica esta que o cinema vem desenvolvendo e apurando há um século.

O mais engraçado é a idéia de que se está fazendo cinema de vanguarda, ao promover supostas inovações de linguagem. Ora, mas uma vanguarda é sempre algo que se faz em contraponto a uma certo ponto de vista e modo de fazer dominante numa arte, não? Como então falar em vanguarda se mal conheço e compreendo de fato o caminho tradicional já consolidado?

Acabo de retornar do 1o Curta Carajás, o Festival de Cinema de Parauapebas, no Pará. Assistimos, ao longo de cinco dias, a 48 curtas de 16 estados diferentes do país, uma bela amostra de nossa produção recente de filmes curtos – 29 ficções, 16 docs e 3 animações. A maioria dos curtas de ficção tem roteiros que fogem de uma estrutura narrativa clássica, isto é, uma história com começo, meio e fim, onde se apresenta uma pergunta que a conclusão do filme responderá ou onde uma situação em desequilíbrio será reordenada. Quase todos são “filmes-cabeça”, abertos, sem trama, sem personagens definidos e sem lugar algum a que se deseja chegar. E a grande maioria, embora não todos, é muito ruim, pois combina roteiros débeis a zero de apuro técnico.

Não sou contra filmes não-narrativos, nem contra a experimentação de linguagem no cinema, mas acho que aventurar-se nessa seara requer muito mais estofo e é algo que deveria decorrer da evolução de uma trajetória que necessariamente tem que partir de um conhecimento profundo da linguagem e estrutura narrativa do cinema clássico hollywoodiano. Além disso, experimentar não significa deixar de lado o apuro técnico e o planejamento. Ao contrário até, pois me aventurando em territórios não cartografados de linguagem só posso ter algum tipo de segurança se conheço as ferramentas do meu ofício.

Essa moda não é boa para a o futuro do cinema brasileiro.

Imprimir | 15 comentários

Jean Charles Surpreende

jean-charles1

Fiquei positivamente surpreso com “Jean Charles”, o filme do Henrique Goldman, que conta a história do brasileiro morto pela Scotland Yard no metrô londrino por ter sido confundido com um terrorista. Confesso inclusive que acabei assistindo ao filme por acidente. Fui para uma sessão de “Ninguém sabe o duro que dei”, mas o horário errado na programação do jornal me confrontou com as alternativas de Jean Charles, Mulher Invisível ou voltar pra casa. Arrisquei o primeiro.

Evidentemente, esperava um melodrama clássico, pintando nosso azarado compatriota como um herói latino-americano, vítima de uma polícia autoritária e despreparada: um defensor da paz, um homem bom injustamente esmagado pelo choque entre radicais islâmicos e o Império.

Não é nada disso. Jean Charles é retratado como um absoluto anti-herói, cujo principal traço é a pior das características nacionais, isto é, o jeitinho e a malandragem vistos como traço positivo de caráter. Logo na sequência de abertura, vemos o protagonista, interpretado por Selton Mello, mentindo deslavadamente para o oficial de imigração que quer negar entrada no país à sua prima, interpretada por Vanessa Giácomo, desconfiado de que ela pretende trabalhar na Inglaterra – o que de fato é obviamente sua intenção. Engambelado o agente do governo, na sequência seguinte, à saída do aeroporto, abraçado à prima e orgulhoso de sua façanha, Jean Charles ensina, sublinhando o quão ingênuos e otários são os ingleses: “Pra mentir bem, tem que mentir com detalhe.” Esse é nosso personagem: um imigrante com inteligência um pouco acima da média que a usa para subir na vida, não importando os meios e servindo-se do famoso jeitinho brasileiro: ele vende vistos de permanência que não consegue entregar, dá a volta em seu empregador e amigo e se oferece para prestar serviços diretamente aos clientes dele, entre outros expedientes pouco éticos ou simplesmente ilegais.

Deve-se ressaltar que escapamos do melodrama fácil, mas que ainda nos encontramos em seu território. O filme é corajoso ao caracterizar Jean Charles dessa maneira, mas o reverso disso tudo é a idéia – corroborada pelo desdobramento de seus expedientes, todos malogrados – de que ele, no fundo, tem bom coração, pois se arrepende dos erros, gosta de ajudar as pessoas e de promover a conciliação geral. A regeneração moral é uma das pedras angulares do melodrama.

Antes do jeitinho brasileiro como crítica de fundo do roteiro, há evidentemente também a crítica direta ao país que não consegue se colocar nos trilhos de algo que se possa chamar de desenvolvimento e que continua empurrando as pessoas para o portão de embarque dos aeroportos rumo ao trabalho no exterior.

O roteiro também ganha pontos por conseguir evitar se estruturar como uma trama conforme o cânone dos manuais de roteiro. Nada mais é que uma exposição do protagonista e de sua vida abruptamente interrompida por seu assassinato, o que sublinha outro subtexto essencial e impactante: a angústia em torno do aspecto aleatório de nossas vidas. Vemos Jean Charles em seu cotidiano banal e de repente acabou-se. São pequenos e estúpidos detalhes que se somam para culminar nos sete tiros que tiraram sua vida. Mínimas diferenças e o resultado teria sido outro.

Outro ponto forte do filme reside na escolha dos atores. Selton Mello passa, mas sua performance é obscurecida pelos coadjuvantes, sobretudo pelo excelente Luis Miranda, que surpreende, por sua formação como comediante, com uma brilhante performance dramática. De modo geral, é muito feliz a escolha de um elenco com cara de gente comum (mesmo Vanessa Giácomo passa muito bem como secretária de dentista de cidade do interior).

Em resumo, não se trata de uma obra-prima, mas o filme merece crédito pela abordagem inesperada e até corajosa. Toca de forma inteligente as emoções e não deixa de ser respeitoso com Jean Charles e sua família, levantando ainda a bola do importante debate sobre emigração no Brasil. Nota 7,5.

Imprimir | 2 comentários

Apagãolipse Now

[Escrevi o conto abaixo — Apagãolipse Now — há exatos 10 anos, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst. Volto a publicá-lo aqui porque traz comentários críticos a dois filmes concorrentes ao Oscar daquele ano: A Vida é Bela e Central do Brasil. Foi inspirado em acontecimentos reais ligados ao grande blecaute ocorrido naquele ano — 11/03/1999 — em quase todo o país.]

 

apagao2

Ivan chegou de Campinas, por volta das dezoito horas, um tanto cansado. Não conseguia se livrar de tanta informação apocalíptica, tantas coincidências significativas, tanta sincronicidade. Ou tudo não passava de humor negro cósmico – que o fazia sentir-se à beira da loucura – ou Alguém o escolhia como um tipo de profeta moderno, um João de Pátmos paulista. Em Campinas, na Casa da Lua, passou dois memoráveis meses em companhia da poeta e escritora outsider Lia Lizt. Tudo ali parecia corroborar não apenas as idéias da estranha organização que conhecera em Brasília, mas também muitos prognósticos sobre o futuro próximo do planeta. Lia Lizt tinha certeza: vivemos uma época à beira do extraordinário e do fantástico, um prenúncio de acontecimentos surpreendentes, deslumbrantes. Os ovnis que ela vira, as manifestações de seres do astral, os sinais que vira no céu, as fitas que gravara com mensagens do além, as vozes que ouvira, suas projeções astrais, os clarividentes que conhecera, sua eterna busca poética de Deus, tudo era prova disso, pouco importando se a chamavam de louca. E a viagem que Ivan fizera a uma imensa fazenda, no extremo norte do Distrito Federal, também o deixara perplexo. Realmente se construía ali uma pequena cidade multiétnica e multicultural, sob os bigodes do governo e da mídia. E ninguém se apercebia desse insólito ululante. E tudo isto era apenas o começo: como já haviam previsto malucos como Dom Bosco e Pietro Ubaldi, ali se planejava o centro de uma nova fase para o planeta. Ana, a amiga que o apresentara àquela gente, lhe contara sem pestanejar: "eles vieram ontem, antes de você chegar. Eram dez naves de quatro diferentes planetas. Vão construir suas embaixadas bem aqui." Ivan não sabia o que pensar. Ana – uma respeitada neurologista – não era nenhuma louca, nenhuma pódi-crê, muito menos aquelas outras cento e cinqüenta pessoas, entre estrangeiros e brasileiros. Ivan conversara, num inglês de Tarzã, com um engenheiro eletrônico japonês que lhe explicou como os extraterrestres vinham lhe ensinando uma tecnologia ainda desconhecida na Terra. "Para produzir energia limpa", dissera ele. Mas o mais incrível é que tudo aquilo era tão natural para aquelas pessoas, que o assunto mais corrente entre todos não eram os ETs, ou a pretensa Nova Era, mas as duas onças que vinham atacando o gado da região. Era surpreendente ainda existirem onças no centro-oeste. Teilhard de Chardin talvez tivesse razão: só o fantástico tem condições de ser verdadeiro.

Em sua casa, na grande São Paulo, Ivan tentava costurar as informações. Um certo Raël, um judeu francês, tentava convencer o Primeiro Ministro de Israel a ceder um terreno para a construção de uma embaixada para os Elohim, aqueles que vêm do céu. Claro, os dois últimos ministros não lhe fizeram caso. Raël escreveu: "não há um povo escolhido. Escolhidos são aqueles que escolhem aceitá-los. Se não for em Israel, será noutro lugar. Eles, os Elohim, oferecem tal oportunidade ao povo judeu apenas por uma questão histórica. Nós os recebemos no passado." Coincidência? Pela Internet, qualquer um pode conhecer tal carta. Mas não há nada sobre a embaixada que está sendo construída em Brasília. Ivan ainda se lembrava quando o japonês lhe falou sobre Karran, o líder ET, e de como há um certo Lord por trás de tudo. Ivan brincou citando Darth Vader, mas o japonês lhe contestou: "não, ele não é material como os outros, como o Karran, ou como nós. É um ser de luz. Esteve entre nós como Jesus de Nazaré…"

Ivan acendeu um beque e ficou pensando no outdoor negro que vira na Marginal Tietê, assim que chegara de Brasília: "Jesus está chegando!", dizia. Loucura? Fanatismo? Ilusão? Ana lhe dissera que nosso mundo é um planeta descarrilhado, mas que está prestes a reingressar na Família Cósmica. "Leia o Livro de Urântia", ela dissera. "Foi dele que o Benítez tirou praticamente todas as informações para escrever os vários Operação Cavalo de Tróia. O tal livro tá todinho na Internet, dizem que é uma revelação dos seres astrais e mentais sobre toda a verdade do Cosmos", acrescentou.

Leia mais

Imprimir | 1 comentário

Dica de Blog: Toca do Cinéfilo

Vale acompanhar.

Imprimir | 1 comentário