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Amir Labaki: A Entrevista no Cinema

Amir Labaki, cordenador do "É Tudo Verdade"

Reproduzo abaixo excelente artigo de Amir Labaki sobre o uso da entrevista em documentários e as questões éticas relacionadas a tal. Amir é coordenador do “É Tudo Verdade”, o mais importante festival brasileiro de documentários. O artigo também pode ser lido no site do ETV.

A entrevista no cinema


Amir Labaki

O recurso à entrevista no documentário esteve ao centro há duas semanas da 11ª Conferência Internacional do Documentário, realizada em São Paulo na Cinemateca Brasileira. O grande risco contemporâneo desse instrumento foi bem definido na mesa de encerramento pelo crítico americano Michael Renov, ao lembrar como por vezes “a ética tem sido sacrificada no altar da certeza política ou ideológica”.

Renov inspirou-se no filósofo francês Emmanuel Levinas (1906-1995), mais especificamente em seu “Totalidade e Infinito”, na defesa de uma “abertura para o Outro” como base de uma ética também para a entrevista filmada. Neste peculiar tipo de encontro, desenvolve Renov, o Eu deve ser como um vácuo a ser preenchido pelo Outro.

Depois de dividir basicamente entre três tipos os depoimentos gravados, qual sejam a entrevista, o testemunho e a confissão, o organizador do simpósio internacional Visible Evidence destacou “a entrevista-emboscada” como das formas mais rotineiras de ruptura dos princípios éticos. Seu grande mestre atual é, claro, Michael Moore.

Sua companheira de debate, a crítica britânica Elizabeth Cowie, iniciou sua participação lembrando certeiramente outra forma perversa de uso da entrevista, no que chamou de “ventriloquismo documentarista”. Trata-se da prática de fisgar na fala do entrevistado tão somente aquelas frases que servem à linha ideológica do cineasta entrevistador. Nem foi preciso citar Moore entre os que poderiam vestir a carapuça.

Em duas mesas anteriores da mesma Conferência, foi revigorante ouvir os documentaristas Marina Goldovskaya e Silvio Tendler explicando métodos distintos de trabalho que se encontram na mesma linha de “abertura para o Outro” definida por Renov. A diretora de “O Gosto Amargo da Liberdade” disse preferir o termo “conversa” a “entrevista” para sua prática de aproximar-se sem pauta e totalmente aberta para o encontro com seus personagens. Já o cineasta de “Tancredo, A Travessia” defendeu que o respeito ao entrevistado começa por um pacto essencial que inicia com a aceitação das condições solicitadas pelo visitado.

A partir das restrições quanto ao uso da entrevista que citei aqui há duas semanas, com a renúncia ao dispositivo em sua série ainda inédita “Imagens do Estado Novo”, convidei por escrito Eduardo Escorel a desenvolver seus argumentos para esta coluna.
Comecei perguntando a Escorel sobre o que o levou à ausência de depoimentos em sua nova obra. “Em documentários que lidam com eventos do passado, não havendo testemunhas oculares da história que possam falar sobre suas próprias experiências, venho sentindo incômodo crescente, há algum tempo, com o que os chamados especialistas têm a dizer e, além de disso, ainda mais com a manipulação abusiva a que são submetidos à sua revelia na montagem”, respondeu-me o cineasta. “Entre a voz do especialista e a voz do autor em narração off, ou até em forma de depoimento, como fez Jorgen Leth em “Aarhus” (2003), acho a segunda opção mais honesta, tanto com relação ao depoente quando ao espectador”.

Questionei então se se trataria de uma renúncia absoluta ao instrumento da entrevista. “Não hesitaria em recorrer a entrevistas de pessoas que estivessem falando sobre suas próprias experiências de vida, presentes ou passadas”, explicou o diretor de “35 – O Assalto ao Poder” (2002).

“E, se me permite”, continuou, “diria ainda que nem sempre, ou quase nunca, registrar um conjunto de depoimentos, recortá-los e reordená-los, resulta em um documentário de interesse e eticamente defensável. A entrevista pode ser, e quase sempre é, apenas um mecanismo fácil de defesa contra a muitas vezes penosa experiência de lidar com situações reais sobre as quais não se tem controle. Documentários não devem ser feitos tão somente entre quatro paredes. É preciso ao menos abrir a janela, olhar para fora, sair pela porta com a câmera e ir ao encontro do inesperado”.

Escorel generosamente adiantou detalhes de sua corrente produção para dirimir qualquer dúvida: “Em tempo: estou editando o documentário “Paulo Moura – Vestígios” que recorre a depoimentos do próprio Paulo Moura, embora não gravados originalmente por mim, do mesmo modo que em “Deixa que Eu Falo”, de 2008, Leon Hirszman depõe em imagens de arquivo. Espero, portanto, estar claro que não estou promovendo uma cruzada pela eliminação da entrevista que submeta seus praticantes a nenhuma espécie de punição”. Tudo somado, o recurso à entrevista reinvidica o respeito a regras, mas nada de dogmas. Melhor assim.

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Como falar de si mesmo com credibilidade

Institucional Grupo Tecnomont/Sigma from Pedro Novaes on Vimeo.


Direção e roteiro: Pedro Novaes
Produção: Sambatango Filmes
Fotografia: Vinícius Aguiar/André Montelo
Direção de Arte: Benedito Ferreira
Edição e Gráficos: Ronei Batista
3D: Fred Brown

Fazer vídeos institucionais interessantes é um enorme desafio, mas de vez em quando a gente acerta a mão.

Em primeiro lugar, como fazer algo que chame a atenção e que minimamente desperte interesse, quando se está falando de coisas como engenharia, fábricas, serviços, indústrias, vendas? Todas coisas aparentemente sem muito apelo estético ou emocional.

Segundo, como fazer com que uma empresa falando de si mesma numa linguagem necessariamente documental transmita credibilidade?

Minha resposta parcial, e acho que ela encontra suporte no institucional acima do Grupo Tecnomont Sigma, está em dois caminhos associados: primeiro, em buscar histórias, exemplos vivos, que atestem o que se fala sobre as qualidades da empresa. Não adianta simplesmente afirmar nada: conte uma boa história e quem assiste irá tirar sozinho suas conclusões. Segundo, dar rosto humano à empresa. E isso não significa botar recepcionistas sorridentes em planos com travelings suaves, mas colocar as pessoas para falarem de fato e com espontaneidade – gaguejando muitas vezes, que seja – , sem olhar para a câmera, dando depoimentos ancorados em sua vivência e sua experiência, que ajudem a contar as histórias acima e demonstrar de forma crível que a empresa de fato é aquilo tudo que se está dizendo.

Isso não é fácil e nem sempre possível porque toma tempo e dá trabalho, mas o resultado é palpável. Imagine as mesmas coisas afirmadas nesse vídeo, ditas apenas por um locutor. Ficaria um vídeo muito chato e com zero de credibilidade.

Obter conteúdo assim só é possível com uma empresa disposta a investir, primeiro, na elaboração dedicada de um roteiro – eu conheci as obras, conversei com as pessoas, pude garimpar as histórias que no final compõem o vídeo -, segundo, confiar em nossa capacidade e investir também na produção.

Por fim, resulta também de uma produtora, a Sambatango Filmes, que também investe para entregar mais do que o prometido, sem economizar recursos para obter o melhor resultado possível.

 

 

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Salve a Água Boa do Xingu – O Filme

Grande medida das diferenças que hoje tenho com os ambientalistas diz respeito ao fato de que uma boa parte deles vive num mundo à parte, de um idealismo descolado da realidade, onde as coisas se definem em termos de tudo ou nada, de nós ou eles. E os problemas ambientais são reais e envolvem profundas contradições nos nossos modos de produzir e de viver, de tal maneira que, para operar mudanças concretas, não é possível falar em tudo ou nada, nem tampouco em nós ou eles.

Neste mundo ideal onde vive essa cepa de ambientalista não existem pessoas de fato, mas estereótipos e, óbvio, tipos ideais, tanto negativos quanto positivos. E nesta taxonomia, fazendeiros são necessariamente a encarnação do mal: pessoas que degradam os ecossistemas por um inato espírito maligno de quem, a la Darth Vader, sente prazer na destruição. De outro lado, há os ambientalistas bons, sempre com as mãos limpas.

Acontece, entretanto, que os propretários rurais – e muitos deles de fato em suas atividades geram impactos sobre o meio ambiente – são pessoas de carne e osso, seres humanos enfim. Como tal, sofrem do mesmo tipo de matizamento que os difere, indivíduo a indivíduo, a ponto de tornar cada um absolutamente singular, a despeito de compartilharem inúmeros traços em comum. E, surpresa, a maioria deles é composta por pessoas decentes e de bem, que desejam desfrutar de qualidade de vida e contribuir para um mundo melhor. Pessoas que, em geral, acham que estão fazendo a coisa certas, assim como nós, que não plantamos milho, nem criamos vacas, mas, não obstante, comemos a ambos.

E queira ou não esta espécie de ambientalista, o mundo em que esses proprietários rurais vivem é o mesmo que o nosso, onde todas as coisas são confusamente entrelaçadas, colocando, por exemplo, numa mesma cadeia de relações, o produtor de soja e eu, que consumo diariamente alguma quantidade de óleo de soja e eventualmente molho de soja, quando vou ao restaurante japonês saciar meu incontrolável apetite por sushis, a despeito de que me preocupem os impactos ambientais das lavouras de soja no mundo, o que borra a separação entre certo e errado, e obriga-nos honestamente a repensar o maniqueísmo que pauta muitas vezes o pensamento simplório que opõe eles a nós.

Pensando dessa maneira, é só o diálogo e a busca de convergências que apresenta uma saída séria, civilizada, democrática e honesta para a crise ecológica. E, pasmem, os proprietários rurais estão conscientes disso e, em geral, abertos para dialogar – ao menos a cepa deles que de fato vive para o campo e sofre na pele as demandas contraditórias que pesam sobre seus ombros, sintetizada na oposição muito real entre usar agora – os recursos naturais – ou poupá-los para as gerações futuras.

É uma visão nessa linha, mais complexa, e que ata um belo sonho e visão de futuro desejado ao conhecimento e aceitação da realidade presente, que guia aquela que, na minha opinião, é a mais bem sucedida iniciativa de preservação ambiental no Brasil: a Campanha Y Ikatu Xingu (ou “Salve a Água Boa do Xingu” em língua Kamayurá), uma ampla iniciativa, capitaneada pelo ISA – o Instituto Socioambiental -, mas que envolve dezenas de instituições dos mais diferentes matizes, em prol da proteção das nascentes e margens do Rio Xingu e seus afluentes.

Desde o início, a campanha constantou que um de seus grandes desafios residia no desenvolvimento de técnicas mais baratas e eficientes de reflorestamento, tendo em vista os altos custos e baixa eficiência das técnicas tradicionais de recuperação de áreas através do plantio de mudas. Quatro anos depois, os resultados são evidentes e altamente promissores: há hoje na região do Xingu uma área crescente de áreas onde cerrado e floresta estão sendo recuperados com plantio de sementes através de várias técnicas que dialogam diretamente com a realidade do produtor, sobretudo pelo uso do maquinário e de técnicas assemelhadas àquelas a que o fazendeiro está acostumado para o plantio de lavouras comerciais.

Nesta semana que passou, estivemos em Canarana (MT) e região, na parte alta da bacia do Xingu, rodando um filme que tem como objetivo disseminar estas técnicas de plantio florestal desenvolvidas pela campanha. É um vídeo didático que possibilitará ao proprietário rural efetivamente aplicar tais técnicas na recuperação de áreas em sua fazenda.

Foram cinco dias de gravações com uma equipe formada por mim, como diretor, Emerson Maia, como diretor de fotografia, Chico Macedo, na elétrica e maquinária, Marco Antonio Macaquinho, como assistente de câmera e técnico de som, e Sérgio “Alex” Mesquita, nosso motorista. Além disso, acompanharam-nos todo o tempo Eduardo Malta, Luciano Eichholz e Cassiano Marmet, da equipe técnica do ISA.

O desafio é o de produzir um material ao mesmo tempo bonito, visualmente atraente, e que fale a linguagem do produtor rural. O resultado deve estar dentro de algumas semanas disponível.

A Sertão Feelmes orgulha-se em ser parceira do ISA e da Campanha Y Ikatu Xingu.

Equipe da Sertão, equipe do ISA e parceiros.

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As locações do filme “Os Caça-fantasmas”

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Série Xingu em DVD

A Cultura Marcas lançou toda a série de documentários “Xingu”, roteirizada e dirigida por Washington Novaes, em um pack de quatro DVDs. A caixa reúne os 10 episódios de 48 minutos realizados em 1984 e exibidos pela primeira vez em 1985 (originalmente intitulados “Xingu – A Terra Mágica”) aos seis novos programas rodados em 2006 e exibidos pela TV Cultura em 2007, sob o novo título “Xingu – A Terra Ameaçada”.

Os cinco grupos documentados em 1984 – Waurá, Kuikuro, Yawalapiti, Metuktire e Panará – foram novamente visitados em 2006 por Washington e sua equipe, de forma a mostrar as transformações ocorridas neste intervalo de mais de duas décadas e a situação atual desses povos da região do Xingu, no Mato Grosso.

Premiada no Brasil e no exterior, a série é seguramente de um dos mais importantes documentos audiovisuais sobre povos indígenas brasileiros.

Para comprar o pacote, visite o site da Cultura Marcas.

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Da Série Xingu

Xingu – A Terra Ameaçada (Abertura) from Pedro Novaes on Vimeo.

A série de documentários “Xingu” se embaralha à minha história pessoal e da minha família.

Em 1983, quando deixou a direção do jornal Diário da Manhã, em Goiânia, meu pai, o jornalista e documentarista Washington Novaes, foi convidado pela Intervídeo, então capitaneada por Walter Salles, Roberto D’Ávila e Fernando Barbosa Lima para conceber e dirigir uma série para a TV sobre povos indígenas brasileiros. Os altos custos e a complexa logística envolvidos levaram à opção por um objeto menos amplo, de onde a escolha pelo foco nos índios do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

Assim, em agosto de 1984, Washington e uma equipe formada pelo fotógrafo Lula Araújo, o técnico de VT e som Antonio Gomes e o produtor José Carmo, partiu para o Parque do Xingu para um estadia de dois meses destinada a retratar inicialmente cinco etnias: Waurá, Kuikuro, Metuktire e Kren-a-Karore (que mais tarde retornaram a seu nome ancestral “Panará”).

O resultado foi a série “Xingu – A Terra Mágica”, em 11 episódios, exibida em 1985 pela extinta Rede Manchete, aclamada pelo público e pela crítica, premiada em festivais de TV pelo mundo afora e prestigiada com uma sala própria em 1986 na importante Bienal de Veneza. Alguns dos programas da série chegaram na época a atingir 20 pontos de audiência, feito inédito para a TV Manchete então e para uma série deste tipo.

Desde então, os índios passaram a fazer parte de nossa vida, sempre frequentando nossa casa, e muitos deles, ao longo do tempo, tornando-se grandes amigos.

Xingu – A Terra Ameaçada (Chamada) from Pedro Novaes on Vimeo.

Em 1987, Washington retornou ao Xingu. Mais uma vez em parceria com a Intervídeo, realizou a série “Kuarup – Adeus ao Chefe Malakwyauá”, que retratou um dos grandes líderes xinguanos e o Kuarup, a festa para os mortos ilustres no Xingu, que o homenageou.

Desde meados da década de 90, meu pai desejava retornar ao Parque para uma terceira série, que estabelecesse uma ponte com a série original e mostrasse as mudanças de toda sorte ocorridas desde 1984. Mas foi apenas em 2006 que o desejo pode se tornar realidade.

Com patrocínio da Petrobras e da Natura, através da Lei do Audiovisual, em mais uma parceria com a Intervídeo e desta vez também com a TV Cultura, Washington voltou a Xingu, desta vez acompanhado de boa parte de sua família, muitos de nós exercendo funções na realização do filme. Eu assumi a assistência de direção e a direção de produção de toda a série, na qual foram gastos 2 milhões de reais. João e Guilherme, meus irmãos, responderam pela Produção Executiva, junto com Cláudio Pereira e Roberto D’Ávila, da Intervídeo. Marcelo, outro irmão, fez a fotografia de still e ainda segurou a segunda câmera.

Na equipe de gravação, contamos mais uma vez com a mão tranquila de Lula Araújo. Antonio Gomes, por problemas de saúde, não pode nos acompanhar, apesar do desejo de Washington de contar com a mesma equipe, e foi substituído por Pedro Moreira.

O Lula é, para mim, um dos melhores fotógrafos de documentários do país, sobretudo em situações como as com que nos deparamos no Xingu, onde os objetos retratados não estão sob seu controle, as coisas acontecendo o tempo todo independentes da vontade de quem filma. O cara pensa e responde muito rápido, produzindo imagens comoventes mesmo nas condições mais adversas e sem nenhuma possibilidade de preparação prévia.

Xingu – A Terra Ameaçada (Chamada Versão 2) from Pedro Novaes on Vimeo.

Foram quase 40 dias divididos entre seis aldeias. Além dos Waurá, Kuikuro, Metuktire e Panará, foram incluídos os Yawalapiti – em função do papel relevante que seu falecido chefe Paru acabou assumindo na série de 1984 – e os Kalapalo – pois este povo hospedava o Kuarup daquele ano no Parque.

Resultaram quase 100 horas de material. Depois de muita reflexão e discussão com Lula, optamos pelo HDV como formato de captação, usando duas câmeras Sony Z1. Apesar de seus problemas e de não ser propriamente um formato profissional, revelou-se adequado para as características do projeto pelo custo mais baixo, pela grande quantidade de material precioso a ser arquivado – fazer isso em formatos sem fita ainda tem suas complicações – e pelo desejo de gravar em alta definição.

Seis novos programas foram editados – um programa de abertura e mais um para cada povo (o Kuarup dos Kalapalo foi incluído no primeiro programa) – e a série antiga foi remasterizada pelos Estúdios Mega com uma nova correção de cor e eliminação de dropouts no material analógico. Somadas, as duas séries viraram uma série de 16 programas, intitulada agora “Xingu – A Terra Ameaçada” (o 11o programa de 1984/1985 era apenas uma espécie de making of da série e foi excluído da nova sequência).

A série completa foi exibia no segundo semestre de 2007 pela TV Cultura e pela TV Brasil com grande resposta do público e da crítica.

Acima, você pode conferir a bela abertura montada pelo João Paulo Carvalho – que também editara a série original – junto com a Aline Nóbrega, e também duas chamadas exibidas em TV e em salas de cinema, como parte do plano de marketing da série.

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Cartas do Kuluene – Primeiro Teste

O antropólogo americano Buell Quain se suicidou em 1939, entre os índios Krahô.

Fizemos ontem uma primeira sessão-teste do primeiro corte do Cartas do Kuluene para alguns amigos próximos, quase todos profissionais do audiovisual, mas nem todos. Estavam também o Tiago Benetti e o Antonio Zayek, dois dos atores que trabalharam no filme.

O primeiro corte ficou com duas horas e cinco minutos. Ainda há muito trabalho pela frente, mas o filme já tem o seu “jeitão”, que era o principal a ser avaliado e discutido, vendo o que funciona ou não, se está cansativo, se prende a atenção, emociona, estimula.

O Cartas é um longa documental que fala da experiência de encontrar índios no Brasil, tentando retratar de forma mais complexa, pelo olhar de três brancos, estas culturas radicalmente diferentes da nossa. Numa troca de cartas imaginária, eu, Buell Quain – antropólogo americano que se suicidou entre os krahô em 1939 – e Paul Berthelot – anarquista francês que se enfiou no meio dos índios do Araguaia na década de 1900 – contamos nossas experiências com os índios e nos angustiamos com a frustração de nossas expectativas e a suspensão da verdade, como a entendemos, entre eles.

O mais positivo desta primeira avaliação e discussão, penso, é que, depois de algum tempo de críticas aos problemas na estrutura narrativa e a elementos específicos seus, as pessoas começaram a debater o conteúdo do filme, o que ele queria dizer e como encaravam isso. Acho que é a principal evidência de que o “jeitão” do filme está no caminho certo, estimulando a imaginação e fazendo as pessoas pensarem.

No lado dos problemas, as pessoas unanimemente acharam o filme muito longo e um pouco cansativo.

A trilha sonora aparece como item número um a necessitar muito trabalho. Ainda que a opção pelo rock pareça sólida, a escolha inicial de trabalhar apenas com músicas já existentes torna o resultado heterogêneo demais. E há uma certa sensação de que há muita música e de que ela está se sobressaindo demais, quando não deveria ser ouvida conscientemente – o que me parece correto, visto que, a despeito de uma estrutura narrativa pouco convencional e dos jogos de significados na representação, o filme não se pretende experimental ou inovador no uso da trilha. Está claro que ela deve ser um dos veículos da estrutura narrativa em moldes convencionais. Nossas experimentações estão em outros campos.

Já tínhamos, na verdade, nos dado conta dos problemas musicais, motivo pelo qual o Margô e o Raphael, músicos experientes e amigos que já fizeram trilhas para dois curtas, estão trabalhando em uma trilha original para o Cartas. Breve, devem apresentar os primeiros esboços.

Há dois problemas importantes apontados em relação à locução, um mais fácil de trabalhar, outro bastante complicado. O primeiro é o de que há locuções que são redundantes em relação a certas imagens, sobretudo nas cartas do Berthelot, que contam uma narrativa mais linear, a trajetória de sua aventura. São, portanto, desnecessárias e serão eliminadas. Isso é fácil e já comecei a extirpar estas partes nos textos. O segundo, mais delicado, é o problema de que o excesso de locuções muitas vezes dificulta ao espectador desfrutar das imagens, sobretudo quando casamos imagens documentais de povos indígenas com locuções reflexivas ou narrativas. As pessoas se sentem atraídas por certas imagens de alto impacto visual ou estético, mas a necessidade de acompanhar as locuções, sobretudo as legendadas (as locuções de Berthelot são em francês, as de Quain, em inglês), oblitera essa possibilidade. Em relação a isso, me pergunto se não seria melhor abandonar essas locuções em línguas estrangeiras. A idéia delas é reforçar um certo clima de babel num filme que fala sobre encontro entre culturas. Dá um charme ao filme, mas traz esses problemas.

Por último, Juliana, minha mulher, apontou algo que me incomoda e a que quero dedicar reflexão e esforço: não conseguimos fazer o espectador sentir – pela via emocional e não somente pela reflexão -, de alguma forma, os mesmos incômodos nesta interação com os índios de que os três narradores falam: tédio, lentidão do tempo e desconforto físico, de um lado, e, de outro, a angústia diante da suspensão da verdade. Acho que a edição de som, ainda por ser feita, terá um papel fundamental nisso, mas precisamos retrabalhar as imagens para tentar produzir este tipo de efeito.

Estou realmente desfrutando da experiência de trabalhar num filme grande e, em alguma medida, ambicioso como esse. O tempo de contato com o material te permite refletir muito, mudar suas impressões e opiniões, ter um monte de insights, estudar e trocar idéias com os colegas de trabalho e amigos. Isso é muito legal. Não estou nem um pouco enjoado ou de saco cheio, apesar de trabalhar vendo essas imagens documentais há três anos e, no Cartas especificamente, há cerca de dois. Passo por fases e fases, detestando e adorando o resultado. Gosto agora de coisas que ontem achava péssimas, desgosto de outras que pareciam boas. Me apego a coisas que antes não me chamavam a atenção, suprimo partes que considerava essenciais.

Aliás, a questão do apego ao material é um tema sempre recorrente nas reflexões sobre edição de filmes e representa, de fato, um grande problema. O tempo, trabalho e carinho dedicado à filmagem e/ou montagem de certas sequências dificultam depois um juízo adequado de sua relevância no filme montado. É difícil “matar nossos bebês”, como diz o Stu Maschwitz, diretor americano, porém essencial. Esse é um dos principais desafios para diminuir um primeiro corte de duas horas e pouco para uma e vinte, que é nossa meta. Não há dúvida, entretanto, de que isso é fundamental.

Vamos em frente. A idéia é, durante essa semana, mostrar o filme a mais algumas pessoas.

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