Sobre Corumbiara
Acabo de assistir a Corumbiara, o documentário de Vincent Carelli que tem como fio condutor a investigação do massacre de um grupo indígena por fazendeiros em Rondônia na década de 1980. Deu uma certa angústia, vontade de enfiar o rabo entre as pernas e sair correndo e ganindo – caim, caim, caim – com meu filmezinho pretensioso sobre índios. Corumbiara é um monolito, uma obra-prima. Corumbiara e Serras da Desordem são os dois maiores documentários sobre índios já feitos no Brasil e dois dos melhores documentários brasileiros de todos os tempos.
Corumbiara é uma experiência audiovisual de alto impacto. Ecos de cinema direto. Premiado com uma menção honrosa no É Tudo Verdade deste ano, com o grande prêmio do 11o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, e agora incluído na seleção oficial de Gramado, o filme de Carelli não tem frescura nenhuma. É documentário no sentido mais nobre e violento que a palavra pode ter. São duas horas de imagens poderosíssimas pontuadas, aqui e ali, pelas locuções econômicas, diretas e sem rodeios do diretor, alguns depoimentos e nenhuma trilha sonora.
A força do filme deriva, a meu ver, em primeiro lugar, do mérito de Carelli em reconhecer que tinha um material poderosíssimo nas mãos e então conseguir não se colocar diante dele, mas simplesmente pavimentar o caminho para que ele pudesse se exibir em toda a sua força. Nem sempre é fácil reconhecer isso. É muito grande a tentação do diretor querer se colocar, e aí fazê-lo da maneira errada, imprimindo uma marca pessoal por meio de firulas, frescuras e truques que acabam dissipando o poder explosivo do que se tem. É fácil pensar também que não se “colocar” seria um demérito, que, como diretor, tenho que fazer algo mais que simplesmente não me interpôr, não atrapalhar. Neste caso, mais que desnecessário, seria um equívoco. E não que o filme não tenha a marca de Vincent. Ele é o cara, a história de vida dele. O documentário restou inconcluso por mais de 20 anos e finalmente agora se fechou. Então, primeiro mérito, fazer um filme sem frescuras que é uma pancada na cabeça.
Em segundo lugar, a força de Corumbiara vem daquilo que ele não mostra, mas que, não exibido, paira sobre o filme e a cabeça do espectador como uma opressiva nuvem: o fato de que este país à nossa volta foi construído à custa de milhares de corumbiaras. Passemos então a uma sinopse e explicação: Corumbiara é o nome de uma gleba de terras em Rondônia, demarcada e vendida pelo Governo Federal, ainda durante a Ditadura, cujos donos ordenaram o massacre de um grupo indígena que ali vivia. À época, Vincent e Marcelo dos Santos, indigenista da FUNAI, investigaram os vestígios do massacre, mas não lograram convencer as autoridades e o país da brutal realidade do que ali ocorrera – isso não interessava a ninguém. Marcelo acabou desacreditado e foi proibido de permanecer na região. Anos depois, em sucessivas viagens, os dois retornam à região para retomar a investigação e seguir o rastro de índios que, acreditavam, poderiam ser sobreviventes do massacre. O documentário segue inconcluso até que, em 2006, Carelli retorna mais uma vez à região.
Desta maneira, quem assiste fica, todo o tempo, espremido entre essa sombra – de todas as corumbiaras não mostradas -, o impressionante universo daquilo que são as consequências diretas e indiretas do massacre investigado e a grandiosidade do universo indígena retratado, vivo e intensíssimo, apesar de todas as corumbiaras. A cena do cerco ao “índio do buraco” solitário e arredio, expulso a bala de outra gleba na região, é das coisas mais impressionantes que já vi. Durante seis horas, Marcelo e sua equipe tentam acalmá-lo para um diálogo. Ele aponta sua flecha, através das palhas da cabana, para a câmera de Vincent o tempo todo. Por ironia, o objeto que mais o ameaçava era o que registraria as imagens que garantiram a interdição definitiva da área para sua proteção.
Imperdível.
UPDATE: desculpas ao Marcelo pelo erro em seu nome, conforme comentário abaixo, já corrigido acima.
Imprimir | 6 comentáriosCartas do Kuluene – Trailer
No ar um primeiro trailer do Cartas do Kuluene, nosso novo documentário. Lançamento previsto para outubro.
Cartas do Kuluene/Letters from Kuluene – Trailer from Pedro Novaes on Vimeo.
FICHA TÉCNICA
Direção: Pedro Novaes
Elenco: Tiago Benetti, Antonio Zayek, Felipe Brum, Beatrice Labaig, Tatiana Marinho
Vozes: Aaron Wolf e François Meyer
Assistente de Direção: Cássia Queiroz
Direção de Fotografia: Emerson Maia
Fotografia Documental: Lula Araújo, Marcelo Novaes e Piva Barreto
Assistente de Fotografia: Dani Azul
Fotografia Still: Rogério Neves
Maquinária: Chico Macedo e Denir Calassara
Elétrica: Roosevelt Saavedra
Direção de Arte: Letycia Rossi
Cenografia: Úrsula Ramos
Maquiagem e cabelos: Accioly Neto
Assistente de Maquiagem: Marcelo Ramos
Produção Executiva: Paulo Paiva. Antonio Guerino, Arturo Lúcio
Produção Maria Eugênia Tovar
Direção de Platô: Maurício Cruz
Edição: Sérgio Valério
Som direto e Edição de Som: Arturo Lúcio
Som documental: Pedro Moreia
Preparação de Elenco: Sandro di Lima
Consultoria Musical: Márcio Jr.
Sertão começa a rodar longa documental
Iniciamos hoje as gravações do documentário em longa-metragem “Cartas do Kuluene”. Com roteiro e direção meus, o filme é um relato emocional a três vozes sobre a experiência de contato com povos indígenas no Brasil. Na forma de uma impensável troca de cartas entre o próprio diretor e dois personagens históricos, o filme se desenrola misturando cenas dramáticas a serem rodadas com atores e cenas documentais, já gravadas no Parque Indígena do Xingu. O diretor troca impressões sobre as emoções e dificuldades da experiência indígena com Buell Quain, antropólogo americano que se suicidou em 1939 entre os Krahô, no Maranhão, e com Paul Berthelot, militante anarquista francês que se embrenhou pelo vale do Araguaia na década de 1910 para investigar se as sociedades indígenas podiam ser consideradas sociedades anarquistas.
O projeto foi aprovado para patrocínio por meio do mecanismo da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia, e conta com investimentos da Leonardo Rizzo Participações Imobiliárias, da Cantagalo Comunicação e do Adress West Side Hotel, além de inúmeros apoios que merecidamente serão listados aqui.
Serão 12 dias de gravações para a conclusão das cenas dramáticas em locações em Goiânia e arredores e depois na Área de Proteção Ambiental do Encantado, no município de Baliza (GO). A equipe é composta por Cássia Queiroz, assistente de direção, Emerson Maia, diretor de fotografia, Paulo Paiva, como produtor executivo, Maria Eugênia Tovar respondendo pela direção de produção e Maurício Cruz na direção de set; Letycia Rossi faz a direção de arte, Arturo Lúcio, a captação de som direto, respondendo também posteriormente pela edição de som e finalização. Daniela Tonaco é nossa assistente de câmera. Ursula Ramos faz cenografia, produção de arte e contra-regragem. A maquiagem e cabelos são responsabilidade de Accioly Neto. A maquinária está sob o comando de Chico Monteiro, auxiliado por Denir Calassara. Rogério Neves faz a fotografia de still. Aline Nóbrega será a editora de imagens e Márcio Júnior assinará a direção musical. A preparação de atores ficou a cargo de Sandro di Lima. Os dois papéis principais ficarão com Antonio Zayek – o anarquista – e Tiago Benetti, o antropólogo. O elenco conta ainda com Felipe Brum e Beatrice Labaig.
Todas as fotos de Rogério Neves.
Imprimir | 11 comentáriosDois docs políticos
A amiga Carolina Paraguassu, diretora e produtora, finaliza seu doc Resistência.doc, sobre a trajetória política do governador goiano Mauro Borges. O trailer pode ser conferido aí acima e o material promete.
Além dele, o polêmico Guerrilha do Araguaia – As Faces Ocultas da História, dirigido pelo Eduardo Castro, terá sua versão televisiva exibida no próximo dia 27, às 21 horas, na TV Cultura, para todo o país. Veja também o trailer na tela acima.
Imprimir | Sem comentários




