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Constantin Noica: cinema como sintoma e como remédio

Constantin Noica

O filósofo romeno Constantin Noica, em seu livro As seis doenças do espírito contemporâneo, discorre sobre a acatolia, "doença" que ataca o homem europeu e, por conseguinte, o ocidental. A acatolia seria a rejeição a todo sentido geral, a toda ordem universal, atitude tão comum ao homem contemporâneo, que já não aceita Deus ou qualquer outro princípio geral organizador da realidade e das vontades humanas. Tudo é contingência, acaso, evento particular, acontecimento isolado. Noica chega a afirmar que foi graças a esse consciente menosprezo pelo geral que o anglo-saxão debruçou-se tão intensamente sobre as coisas individuais, desenvolvendo a técnica em alto grau, o que nos levou, entre outras coisas, a gêneros artísticos inéditos, tal como o cinema. Contudo, o cinema vive o duplo destino de ser tanto um sintoma de acatolia quanto um possível remédio para o vazio espiritual…

À alegria de fazer justiça ao real imediato corresponde plenamente uma das modalidades de criação do homem enquanto artista, modalidade aliás que a técnica moderna veio favorecer dia a dia. Com o homem moderno, a acatolia [a negação de um sentido geral] encontrou seus próprios meios e sua própria arte. Criar pode significar não somente obter a projeção do individual em algo geral mas também, na indiferença por todo geral, condensar um mundo de manifestações e até de simples miragens em destinos e em figuras individuais que as sejam capazes de fixar. E, como a visão é o principal sentido fixador (tendo os quatro outros como uma propensão para o que é difuso) e o que parece verdadeiramente dar ao homem o poder de delimitar tanto a idéia (que também para os gregos era ligada à visão) como a imagem real, esse gênero de criação será o do visual. Tudo se pode traduzir em imagens, como se o ato criador consistisse em transportar ou transpor um mundo para uma tela. Por isso, num mundo acometido de acatolia, aparecem as novas artes da tela, sobretudo a cinematografia, com suas veleidades de fixar tudo no individual, incluindo a imaginação mais desenfreada, mas também com a miséria de sua condição: não encontrar seu equilíbrio artístico último — e igualmente ontológico —, que é o dos sentidos gerais.

Com efeito, por que essas determinações, livres como são, se fixariam em tais realidades individuais e não em outras? Há nessa fixação em simples imagens como uma forma de fundamento não-fundado. As manifestações que demandavam fixação terminam, ao fim e ao cabo, na instabilidade de casos particulares (como aliás no romance moderno) condenados a proliferar ao infinito, para responder assim, com algo da ordem da quantidade, à carência fatal de sentido. Onde falta até o eco do sentido geral, tudo soçobra no mau infinito dos particulares. A alegria de fazer justiça ao real transforma-se — tal como nossas vidas vazias de sentido — em sentimento do nada.

(…)

Não obstante, assim como a música nos parecia caracterizar a atodecia [a negação da ordem individual], agora é a arte nova, a cinematografia, e não os expedientes das artes tradicionais, que nos pode dar a medida e a cor (cinzenta) da acatolia. Marcada pelo signo da precariedade (ontológica, afinal de contas) de não ter nascido do geral, como as outras artes da espiritualidade religiosa ou humana em sentido amplo, a cinematografia encontrou para si uma extraordinária função artística, sem no entanto tornar-se uma verdadeira arte. Na verdade, ela, desde o início, cumpriu duas funções: adquiriu tanto um sentido de arte popular — como o tinha, segundo se diz, antes da Renascença, e até na Antigüidade, o teatro, que não fazia nenhuma distinção de classe — como a função de servir de campo de experimentação artístico a criadores que já não se sentem a gosto nas artes tradicionais. Em ambos os casos, a cinematografia corresponde a um mundo onde prepondera a acatolia. Hoje as massas já não querem ensinamento nem sentido, recusando instintivamente o geral que lhes ofereciam outrora as grandes obras e os grandes livros de sabedoria da humanidade, mas, "esclarecidas" como são, reclamam, na falta de sentidos gerais diretores na arte, a simples "evasão" pelo espetáculo; e é certo que, por este fato e sob o impacto cada vez maior da acatolia de nossa civilização técnica, a cinematografia conservará sua popularidade. A partir de agora essa semi-arte se mantém generosamente à disposição do criador para novas experiências artísticas, ali onde a profusão de imagens e de pensamentos não cessa de preencher o vazio deixado pela deserção da "idéia": É provável que precisamente na cinematografia se tente em futuro próximo, com o máximo de felicidade, dar estatuto artístico às exigências espirituais impostas pela acatolia da civilização técnico-científica. E quem sabe se, mergulhando no individual, no humano e no contingente, o espírito ocidental não reencontrará um dia, às avessas talvez, o céu?

Nesse ínterim, vivemos num mundo onde o instrumento artístico mais difundido, o cinema, não produz arte, onde as realidades e os objetos mais numerosos, as criações técnicas, não têm investidura ontológica, e onde os conhecimentos locais menos incertos e mais indispensáveis ao homem moderno, a saber, os conhecimentos históricos e sociais, já não têm leis. Algo está desabando no mundo da acatolia, apesar de suas muralhas de exatidão. Já não resta ao homem, sobretudo o europeu, senão reencontrar, graças à contribuição de outros mundos do planeta — o oriental, o sul-americano e até, talvez, o infra-europeu — e ao contato com as demais doenças, sua própria riqueza espiritual, a fim de trilhar assim, ultrapassando o espírito de exatidão, alguns caminhos para a verdade, e reencontrar seu lugar de homem verdadeiro, não de laboratório, no mundo do espírito.

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O cinema de John Ford: vitória moral

John Ford

« Operada a necessária distanciação, que pode motivar um julgamento mais profundo, creio que a obra de John Ford resiste e persiste. A pureza da sua encenação, sempre imediatamente visual, sempre simples – e portanto essencial – assenta sobretudo na sugestão dinâmica do enquadramento (“moving picture” em que tudo ocorre), na “montagem invisível” dos planos quase sempre fixos, sem efeitos nem piruetas técnicas, e na qualidade humana das personagens, levemente carregada no bem e no mal, que as torna fascinantes diante do espectador.

« Qualquer filme de Ford, nos últimos anos sem certos formalismos naturalistas ou expressionistas que prejudicavam a sua veia mais genuína, é um apelo à vida, à esperança, à possibilidade de os homens se encontrarem, mesmo que para tal encontro tenha de ser usada a força. É o sentido da comunidade, da família, do homem nascido da terra e da tradição, buscando as suas verdadeiras raízes, que preocupa o cineasta, que na pureza dos espaços livres do Oeste, do mundo dos pioneiros, ou nos raros refúgios de paz encontra as linhas depuradas de união.

« Os dois John Ford, de que falava Domingos Mascarenhas, acabam por ser um único, pois toda a sua obra é afinal uma obra visão, aparentemente contraditória, defendendo aqui a actualidade para logo ali lhe preferir a lenda, propondo numa altura certas figuras de chefe para sugerir mais adiante a rebeldia de uns quantos, esquecendo várias vezes a mulher para logo a valorizar, cantando os feitos da cavalaria americana para defender depois o povo índio contra essa mesma cavalaria.

« Essa duplicidade funciona sobretudo ao nível da visão dos filmes, quase sempre muito directos e muito fáceis de entender numa primeira apreciação, muito mais profundos e subtis para lá dessa visão inicial de superfície, ricos de pormenor, de observação humana, de original entendimento das coisas.

« Tal processo de aparências é sobretudo detectável de modo como constrói a vitória das suas personagens centrais, aparentemente derrotadas, mas glorificadas nessa mesma derrota, vencedoras no plano dos valores, símbolos de algo perene que ultrapassa o homem. Talvez por isso os seus “heróis” sejam personagens secundárias da história, mas ricas de humanidade e sabedoria, verdadeiros amigos, marcos evidentes da família humana.

« A sua ideia mais profunda é a do retorno às origens, uma espécie de renascer que, como católico, o leva a adoptar o pensamento essencial da Ressurreição. E, se me dessem a escolher, dentre as muitas frases-chave da sua obra, escolheria com certeza as palavras finais de “Homens para queimar” [no Brasil, “Fomos os sacrificados”], quando os sobreviventes caminham ao longo da praia abandonada, sem rumo certo, mas com a certeza de que os seus passos levam a melhores dias: “We shall return” – havemos de voltar.»
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Fonte: John Ford, de Luis de Pina.

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O Tunelzinho da Princesa

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Neste domingo, às 15 horas, na FILC, em Campinas, acontece o lançamento do novo livro do brother Biajoni, o já famoso “Buceta – Uma Novela Cor de Rosa”.

Para quem não conhece, Biajoni é autor do lendário “Sexo Anal – Uma Novela Marrom”, uma novela pornô-policial absolutamente genial. Para usar as palavras de um grande psicanalista amigo meu – a quem apresentei o Sexo Anal (o livro apenas) -, “o Biajoni é um Machado de Assis da intimidade”. É fato, o Bia escreve pra caralho: seus livros têm um ritmo que os torna impossível de largar e uma ironia e profundidade na construção dos personagens que fazem com que o sexo explícito seja apenas a cereja do bolo.

Conheci o Biajoni porque propus a ele fazermos um roteiro cinematográfico do Sexo Anal. Na verdade, o livro já é um roteiro de filme praticamente pronto. Eu adoraria filmá-lo. Está na gaveta dos projetos, pois resolvemos primeiro roteirizar o “Virgínia Berlim”, outro de seus romances imperdíveis. O roteiro está por aí, em edital do Minc, e vamos tentando articular caminhos para viabilizá-lo.

Nos encontramos no Rio de Janeiro por uma coincidência de viagens e tomamos mais de 50 chopps no Baixo Gávea. Mas, como quem bebe com o Bia não tem ressaca, acordei são no outro dia de madrugada pra dirigir de volta até Goiânia. É uma amizade nova que parece antiga.

Enfim, crianças, tive o privilégio de ser um dos primeiros leitores do “Buceta” e posso assegurar-lhes que é mais uma pequena obra-prima e outro  roteiro cinematográfico pronto, que inclui alguns dos mesmos personagens do Sexo Anal e o mesmo cenário de cidade média do interior paulista (por coincidência, o Bia mora em Limeira). É a história da descoberta de um golpe envolvendo desmanche de carros com a participação de uma grande concessionária, de vários outros crimes que se ligam a este e de um trágico e grande amor entre dois homens. Tem de tudo: uma loira fatal bandidíssima, muitos travestis – um deles é de Goiânia (o Bia gosta de fazer pequenas homenagens a seus amigos nos livros) -, sexo de todos os tipos, crimes, sangue e bucetas.

Não perca. O livro já está em pré-venda no site da Os Vira latas.

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Vale pra música, vale pro vídeo

viralloopnetwork

20 Things You Must Know About Music Online, livro de Andrew Dubber, sugere estratégias para músicos se posicionarem bem na Internet. Acho que várias das coisas que ele aponta servem também para videomakers. No blog Musicaliquida, uma tradução das vinte dicas resumidas. O livro é um ebook que pode ser baixado de graça.

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Novelo de Teseu

Gore

Embora voltado para a realidade do cinema independente americano, o “Ultimate Festival Survival Guide”, escrito por Chris Gore, traz informações bastante interessantes também para o nosso mundo aqui embaixo. Entre outras coisas, ajuda a pensar uma estratégia coerente e realista para a busca de festivais adequados a seu filme e propósitos, economizando grana e maximizando as chances de sucesso. Quem já tentou, sabe que enorme labirinto é a infinita miríade de festivais aqui no Brasil e no exterior. Catorze dólares na Amazon, fora o frete.

Vai para a nossa biblioteca aí ao lado.

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